ABDI e UnB desenvolvem kit de bolso para identificar metanol em bebidas alcoólicas
Teste detecta substância mesmo em bebidas açucaradas e coloridas, em até três minutos, com potencial de reforçar a fiscalização e ampliar a segurança do consumidor
A Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e a Universidade de Brasília (UnB) lançaram nesta quinta-feira, 18/12, em cerimônia no Instituto de Química da universidade, um dispositivo capaz de identificar, de forma rápida e de baixo custo, a presença de metanol em bebidas alcoólicas. Inédito no Brasil, o teste é o único que consegue detectar a substância também em bebidas açucaradas e coloridas, ampliando as possibilidades de fiscalização e de proteção ao consumidor.
O dispositivo é resultado de um Acordo de Cooperação Técnica (ACT) firmado entre a Agência, a UnB e a Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos (Finatec) que formalizou um investimento de R$ 382 mil da ABDI. Além do desenvolvimento do dispositivo, a parceria inclui estudos de formulação e otimização de reagentes, ensaios comparativos, produção de lote piloto, elaboração de manual simplificado, depósito de patente e ações de prospecção de mercado.
Na cerimônia, também dedicada à assinatura simbólica do ACT, o presidente da ABDI, Ricardo Cappelli, destacou a importância do apoio e investimento nas pesquisas, bem como na realização de boas parcerias. “No Brasil, nós, como sociedade brasileira, precisamos juntar esforços. Com desafios da sociedade real – aqui, no caso, o desafio sanitário –, mas também um desafio de proteção da indústria, pois problemas como esse, relacionado ao metanol em bebidas, impactam diretamente o setor produtivo”, observou.
“E aí, juntando essa inteligência e essa capacidade imensa que a universidade tem de produzir conhecimento, produzir pesquisa com um setor produtivo para solucionar problemas reais, a gente gera mais desenvolvimento e mais empregos no país.”
A tecnologia lançada na UnB é compactada em um kit de bolso pronto para uso tanto por consumidores quanto por estabelecimentos comerciais para a testagem de bebidas sob suspeita de adulteração. O laboratório também desenvolveu kits de testes para serem usados em grande escala.
Resposta a problema real
O metanol é um álcool tóxico que pode causar intoxicação grave, cegueira e até levar à morte.
Segundo o diretor-presidente da Finatec, Daniel Rosa, “essa é uma resposta direta a um problema real de saúde pública, de segurança do consumidor e de compliance para o setor produtivo. Para termos a dimensão, cerca de 3 ml, ou seja, meia colher de chá de metanol, se consumidos, já podem causar cegueira, e apenas 5 ml podem levar a óbito. Ou seja, uma pequena quantidade pode resultar em consequências trágicas”.
“É uma grande satisfação saber que a universidade está conseguindo levar até a sociedade esse benefício que impacta positivamente na saúde dos brasileiros e na economia do país”, acrescentou o diretor do Instituto de Química, professor Marcos Juliano Praichner.
A reitora da UnB, Rozana Naves, também celebrou a parceria com a ABDI. “A assinatura do convênio, para nós, é uma grande oportunidade de contribuir com esse ecossistema de produção industrial. A maioria dos projetos que fazemos são realizados com recursos públicos, e essa transparência, esses mecanismos que temos desenvolvido têm assegurado muita qualidade no investimento público e muito resultado”.
Método colorimétrico
A tecnologia consiste em um método colorimétrico de alta sensibilidade que permite a identificação visual do metanol a partir da mudança de cor do reagente. De fácil manuseio e com resposta em até três minutos, o dispositivo foi desenvolvido para apoiar ações de fiscalização e poderá ser utilizado por produtores e consumidores, contribuindo para a prevenção de intoxicações e o aumento da segurança no consumo de bebidas alcoólicas.
O kit é composto por um tubo coletor e três frascos de reagentes, aplicados de forma sequencial. O primeiro remove a coloração da bebida, caso ela seja originalmente colorida. O segundo provoca o escurecimento do líquido, que passa a apresentar tom marrom. Na etapa final, o terceiro reagente indica o resultado do teste: se houver metanol, o líquido adquire coloração de rosa a roxa, conforme a maior ou menor presença do elemento; se permanecer transparente ou amarelo-claro, a bebida é considerada segura para consumo, sem detecção da substância.
O professor do Instituto de Química, Paulo Suarez, explica que as pesquisas tiveram início em 2010, com foco na detecção de metanol em etanol combustível. Com o apoio da ABDI, neste ano, e diante do aumento de casos de adulteração de bebidas no país, a metodologia foi adaptada para um novo formato. “O que a gente fez foi trabalhar em cima da metodologia, adaptando-a para fazer um kit de bolso que a pessoa possa analisar a sua bebida no bar, onde ela estiver”, afirmou.
Segundo a pesquisadora do Laboratório de Bioprocessos Materiais e Combustíveis da UnB, Sandy Chaves, o teste rápido detecta metanol nas bebidas a partir de 0,05%, o que equivale a 4 gotas de metanol em um litro de bebida. “Quanto maior a quantidade de metanol, mais escura vai ficando a coloração do teste.”
Ainda não há previsão para a comercialização do kit em larga escala. No entanto, o serviço de análise de bebidas já pode ser solicitado ao Laboratório de Bioprocessos, Materiais e Combustíveis da UnB por qualquer pessoa ou instituição interessada. Quando chegar ao mercado, a expectativa é que cada unidade do dispositivo tenha custo inferior a R$ 10.
Dados do Ministério da Saúde indicam que, no período de 26/7 a 5/12 deste ano, foram registradas 890 notificações relacionadas à intoxicação por metanol no Brasil, com 73 casos confirmados, o que reforça a relevância da iniciativa para a proteção da saúde pública.
Fonte: assessoria







