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De Uberaba para o Brasil: como uma goiabada tradicional virou marca gourmet

O aroma adocicado que hoje toma conta da fábrica da Minaly Alimentos, em Uberaba (MG), carrega bem mais do que goiaba e açúcar. Ali estão memórias familiares, aprendizados difíceis e uma trajetória empresarial construída ao longo de mais de 30 anos, marcada por quedas, recomeços e pela aposta no conhecimento como motor de transformação.

A história começa em 1994, quando José Amâncio Tavares decidiu transformar uma receita de família em negócio. Antes disso, ele rodava o Triângulo Mineiro em uma kombi, comprando doces de terceiros para revenda. A virada veio quando resolveu produzir a própria goiabada, baseada em um saber passado por gerações.

“Meu pai aprendeu a fazer goiabada cascão com a avó dele. No quintal, as goiabas amadureciam todas de uma vez, e o doce era a melhor forma de aproveitar. A fruta estragava rápido, mas a goiabada durava o ano inteiro”, conta Mariana Tavares, filha do fundador e atual gestora da empresa.

O negócio ganhou o nome de Doces Mineirão e se consolidou regionalmente. Mas a falta de estrutura em gestão financeira cobrou seu preço: ao longo dos anos, a empresa enfrentou duas falências.

“Ele acreditava muito no produto, mas não tinha educação financeira para controlar o caixa e precificar corretamente. Hoje entendemos o quanto isso foi decisivo”, afirma Mariana.

Em meio às dificuldades, Vera Lúcia Tavares, esposa de José Amâncio, assumiu a parte financeira do negócio. Mesmo sem formação na área, foi peça-chave para manter a empresa funcionando nos períodos mais críticos.

Mariana cresceu dentro da fábrica, mas nunca foi preparada para suceder o pai. “Ele não queria que eu trabalhasse com isso. Depois de tudo o que viveu, insistia para que eu buscasse algo mais estável, como Direito e concurso público”, relembra.

Formada em Engenharia de Alimentos em 2010, Mariana trabalhava na indústria de refrigerantes e se preparava para um processo seletivo de trainee quando voltou temporariamente à Doces Mineirão para ajudar o pai com questões técnicas. Poucos meses depois, em maio daquele ano, José Amâncio faleceu após um infarto fulminante.

Com a empresa novamente fragilizada, Mariana tomou a decisão de abandonar a carreira industrial e permanecer em Uberaba para tocar o negócio da família.

“A faculdade te ensina a produzir, mas não a gerir pessoas ou administrar uma empresa. Eu sabia fazer o doce, mas não sabia liderar”, conta.

A virada começou em 2011, quando Mariana buscou apoio do Sebrae Minas, passou por consultorias financeiras e participou do Empretec. Vieram também cursos em gestão, vendas, finanças e processos produtivos. Vera Lúcia voltou a estudar e ingressou em Ciências Contábeis.

“Percebemos que o conhecimento era a única forma de não repetir os erros do passado”, diz Mariana.

Organização Interna

Durante quase dez anos, a estratégia foi de contenção e organização interna, com foco na goiabada cascão, já consolidada no mercado regional. A mudança mais significativa veio entre 2019 e 2020, com a ampliação do portfólio e o reposicionamento da marca.

Nascia ali a Minaly Alimentos, voltada a um público que busca produtos artesanais com proposta mais gourmet. A Doces Mineirão foi mantida para concentrar os itens tradicionais, como goiabada, bananada e doce de queijo.

“A marca Mineirão é muito forte, mas também limitava nossa expansão. A Minaly surgiu para permitir crescimento, novos produtos e novos públicos”, explica.

Hoje, a Minaly Alimentos emprega cerca de 20 pessoas em Uberaba e distribui seus produtos para diversas regiões do país, atendendo supermercados, empórios e lojas especializadas em alimentos artesanais e naturais.

O principal desafio segue sendo crescer sem perder identidade. “A receita original da goiabada continua a mesma. Mesmo com ajustes de maquinário, o cuidado é não descaracterizar o produto”, afirma.

Entre tradição e inovação, Mariana construiu uma liderança baseada na experiência prática e no aprendizado constante. “Eu não planejei empreender, mas entendi que isso fazia parte da minha história. Seguir em frente foi, acima de tudo, um ato de coragem.”



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Fonte: Regionalzao

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