Uma nova usina de biometano em construção na Irlanda mostra como resíduos da indústria de bebidas podem ganhar papel estratégico na transição energética. O projeto, liderado pela empresa irlandesa Evergreen Agricultural Enterprises (EAE), utilizará subprodutos da produção de cerveja e uísque, como bagaço de malte e leveduras, para gerar gás renovável.
A planta está sendo construída em Monasterevin, no Condado de Kildare, com início das operações previsto para 2026. O investimento de 50 milhões de euros foi anunciado pelo grupo francês Eiffel Investment Group. Quando estiver em funcionamento, a produção anual será suficiente para abastecer o equivalente a 10 mil residências.
Segundo informações divulgadas pelo Gasworld, a usina contará com quatro digestores e um digestor secundário, cada um com volume de 4,9 mil metros cúbicos. Neles, os resíduos agroindustriais passam por um processo de fermentação que resulta na geração de biogás, posteriormente purificado para se tornar biometano.
O que é biometano e por que ele importa
O biometano é um gás renovável quimicamente idêntico ao gás natural de origem fóssil, composto majoritariamente por metano. Por essa característica, ele pode ser injetado diretamente nas redes de distribuição existentes, sem necessidade de adaptações em eletrodomésticos, veículos ou infraestrutura.
Sua produção ocorre a partir da digestão anaeróbica de resíduos orgânicos — como restos de alimentos, dejetos animais ou resíduos agroindustriais. Nesse processo, microrganismos decompõem a matéria orgânica em ambientes sem oxigênio, gerando biogás. Após a purificação, o teor de metano ultrapassa 90%, alcançando padrão equivalente ao do gás natural comercial.
Além do aspecto energético, o biometano se destaca por contribuir para a economia circular, ao transformar resíduos em insumo energético e reduzir a dependência de combustíveis fósseis.
Resíduos da indústria de bebidas como estratégia
Um dos pontos centrais do projeto é a decisão de utilizar exclusivamente resíduos da indústria cervejeira e de destilados. A escolha evita a competição com a pecuária local, já que outros materiais comuns nesse tipo de usina — como silagem ou estrume — também são utilizados na alimentação animal.
Com essa estratégia, a EAE deve processar entre 100 mil e 165 mil toneladas de resíduos agroindustriais por ano, criando um ciclo produtivo que conecta a indústria de bebidas, a gestão de resíduos e a geração de energia renovável.
Em entrevista ao The Irish Times, o diretor de investimentos do Eiffel Investment Group, Alexis Sarton, afirmou que o projeto combina eficiência técnica, responsabilidade ambiental e valor econômico, além de forte envolvimento com as comunidades locais. A expectativa é de geração de cerca de 75 empregos diretos e indiretos na região.
A iniciativa ganha ainda mais relevância em um contexto em que a Irlanda importa a maior parte da energia que consome. Enquanto o país avança na ampliação de fontes renováveis internas, projetos como esse ajudam a reduzir a dependência externa e a exposição a custos elevados de energia.







