A pitaya vermelha, conhecida pelo visual vibrante e pelos benefícios à saúde, ganhou mais um motivo para entrar no radar de pesquisadores: seu potencial no cuidado com o intestino. Rica em antioxidantes como betacianina e rutina — compostos com propriedades anti-inflamatórias —, a fruta foi o centro de uma pesquisa da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da USP, em parceria com o Food Research Center (FoRC).
O estudo investigou o que acontece quando a polpa da pitaya é fermentada com probióticos (as cepas Lacticaseibacillus paracasei F-19 e Bifidobacterium animalis BB-12). O resultado surpreendeu: a fermentação foi capaz de ativar o gene ATG16L1, que regula a autofagia — o “sistema de limpeza” das células, essencial para remover componentes danificados e prevenir inflamações, especialmente no intestino. Nos testes de laboratório, houve um aumento de até duas vezes na expressão desse gene em células de cólon humano cultivadas.
Segundo a autora do estudo, Juliana Yumi Suzuki, esse mecanismo é importante não apenas para manter a saúde celular, mas também para ajudar na prevenção de doenças inflamatórias intestinais, como a colite ulcerativa e a doença de Crohn. Além disso, a autofagia contribui para retardar o envelhecimento celular.
Um dos achados mais interessantes foi que a ativação do gene ATG16L1 ocorreu sem a participação do receptor de vitamina D (VDR). Até então, acreditava-se que esse receptor fosse indispensável para esse processo.
O VDR, presente em quase todas as células — especialmente no intestino delgado e no cólon —, atua como um “interruptor genético” que regula a expressão de vários genes, inclusive os ligados à autofagia. Descobrir que a pitaya fermentada consegue acionar esse mecanismo por outra via abre novas possibilidades para o uso de alimentos fermentados na promoção da saúde celular.
A pesquisa também avaliou as mudanças químicas na polpa antes e depois da fermentação. As versões fermentadas apresentaram maior concentração e estabilidade de betacianina, preservando o pigmento por até 28 dias de armazenamento. No caso da fermentação com a cepa F-19, surgiu ainda o 2-feniletanol, composto com propriedades antifúngicas e antimicrobianas, além de um aroma floral suave — o que pode interessar às indústrias de alimentos, cosméticos e farmacêuticos.
Para a professora Susana Marta Isay Saad, orientadora da pesquisa, os resultados são promissores e podem inspirar o desenvolvimento de alimentos funcionais de origem vegetal, atendendo também públicos como veganos, flexitarianos e pessoas com alergia à proteína do leite.
A descoberta reforça o papel da ciência na valorização de ingredientes naturais e na busca por estratégias inovadoras para a saúde intestinal. E, quem sabe, no futuro, a pitaya fermentada poderá estar na prateleira como um aliado no equilíbrio da microbiota e na proteção das células.
Fonte: Jornal da USP







