No último sábado, 28 de junho, foi celebrado o Dia do Orgulho LGBTQIA+, data que representa a luta por direitos, respeito e visibilidade dessa comunidade em todo o mundo. Entre as iniciativas que marcam essa celebração, destaca-se a 9ª edição da campanha “Orgulho do Meu RG”, realizada pela organização social Bicha da Justiça, em parceria com a Nestlé. O projeto viabiliza a retificação de documentos civis para pessoas trans, travestis e não binárias em diversas regiões do Brasil.
Criada em 2021, a campanha surgiu a partir da identificação de dois grandes obstáculos enfrentados por essa população ao tentar emitir documentos com seus nomes e identidades de gênero: os custos elevados — que podem ultrapassar R$ 1.800 — e a burocracia envolvida no processo. Em estados como São Paulo, por exemplo, é necessário reunir mais de 30 documentos públicos para formalizar a retificação.
Bruna Andrade, CEO da Bicha da Justiça, reforça que o acesso à documentação básica ainda é desigual no país. “A realidade da capital paulista é diferente do interior do Amazonas. Os serviços públicos ainda são muito hostis para pessoas trans, especialmente fora dos grandes centros urbanos”, pontua.
Com o apoio de empresas parceiras como a Nestlé, a campanha já beneficiou 280 pessoas em mais de 140 municípios. Na edição deste ano, 35 pessoas maiores de 18 anos terão a oportunidade de ter seus documentos retificados, independentemente da região onde vivem. Todos os custos são integralmente cobertos pela organização.
Compromisso com a diversidade e inclusão
Para a Nestlé, apoiar o “Orgulho do Meu RG” está diretamente ligado à sua estratégia de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI). Segundo Augusto Drumond, head de Diversidade e Inclusão da companhia, contribuir com a retificação de documentos é uma forma concreta de devolver dignidade às pessoas trans. “Trabalhamos para garantir que cada nome represente verdadeiramente a identidade da pessoa. Isso evita constrangimentos no momento de apresentar documentos em entrevistas, atendimentos de saúde ou outras situações cotidianas”, explica.
Essa abordagem inclusiva também está presente nas políticas internas da empresa. A Nestlé integra grupos de afinidade em sua estratégia ESG e atualmente conta com mais de mil pessoas com deficiência, 47% de colaboradores negros e 44% de mulheres. Além disso, investe em ações afirmativas e letramento contínuo sobre questões LGBTQIA+, incluindo a cobertura de até 80% dos custos de retificação para colaboradores que desejam atualizar seus documentos.
Identidade, autoestima e novas possibilidades
Para muitas pessoas trans, a emissão de documentos que reflitam sua identidade representa o início de uma nova etapa de vida. “A palavra que mais ouvimos nesses atendimentos é ‘recomeço’. Esse documento abre portas para empregos, estudos, e até mesmo para a realização de sonhos pessoais”, afirma Bruna Andrade.
Apesar dos avanços, os desafios ainda são significativos. A ausência de uma legislação eficaz que responsabilize crimes de transfobia e homofobia é uma das principais barreiras apontadas tanto por Andrade quanto por Drumond. Para eles, o combate à violência e à discriminação passa por políticas públicas estruturadas e por ações educativas constantes, inclusive no ambiente corporativo.
As inscrições para a edição de 2025 do projeto devem ser divulgadas em breve no perfil oficial da Bicha da Justiça. A iniciativa reforça a importância do compromisso conjunto entre sociedade civil e empresas para promover uma cidadania plena e inclusiva para todas as pessoas, independentemente de sua identidade de gênero.
Fonte: Exame







