Brasil é o 9º maior produtor mundial de morangos
mas ainda não atende à demanda do mercado interno
Em 2023 foram produzidas 187,8 mil toneladas no país, consumo de 925 gramas por brasileiro no ano; especialista aponta que chegada de novas variedades deve mudar o cenário nos próximos 5 anos
A produção brasileira de morango precisa passar por um choque de cultura para ampliar sua importância no mercado nacional. Embora o país seja um produtor respeitável, o nono maior do mundo, o consumo da fruta ainda é muito pequeno e tem grande potencial de crescimento. Segundo dados mais recentes da Embrapa, em 2023 foram produzidas 187,8 mil toneladas de morango no Brasil, consumo per capita de 925 gramas por brasileiro no ano. Na cesta de frutas das famílias do país, o morango representa 3% do total, enquanto nos Estados Unidos, equivale a 60%, segundo estudo do Senac divulgado antes da pandemia..
O engenheiro agrônomo e consultor especialista em morango Ronaldo Herculano de Lima afirma, em participação no Podcast Ascenza (www.ascenza.com.br), que o cenário de cultivo do morango no Brasil deve passar por mudanças expressivas nos próximos cinco anos, com a chegada de novas variedades da fruta, que no conceito científico é um receptáculo floral ou pseudofruto. “O Brasil ainda não produz o que o mercado interno demanda. Os produtores trabalham muito com variedades antigas, mas novos cultivares estão surgindo, com mais sabor e um pós-colheita mais resistente”, explica
Hoje, aponta o agrônomo, a variedade mais plantada no Brasil é a San Andreas, que ocupa cerca de 85% das lavouras de morango. Ela é a mais resistente, mas não é a mais doce. “O morango brasileiro é um excelente vendedor de leite condensado, para adoçar a fruta ao ser consumida”, brinca. Em Brasília há produção de Camarosa e alguns agricultores investem na Albion, mais saborosa e também mais sensível. “Novas variedades importadas principalmente de viveiros do Chile, Espanha e Flórida devem mudar muito a produção brasileira de morango entre três e cinco anos”, comenta.
O especialista cita que os países referência na produção de morango para o Brasil são o Sul da Espanha e da Itália, relativamente parecidos em questões climáticas. Os maiores produtores mundiais são China, Estados Unidos, Egito, Turquia, México, Espanha, Rússia, Polônia e Brasil, conforme dados de 2023 da FAOSTAT, banco de dados estatísticos sobre alimentação e agricultura da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO/ONU).
O grande desafio para o produtor brasileiro ser mais competitivo, abastecer o mercado nacional e explorar o mercado internacional é se adequar à mudança de variedades e plantar diferentes cultivares na mesma lavoura. Lima comenta que cerca de 80% das mudas de morango plantadas no Brasil são chamadas de “piratas”, replicadas e vendidas pelos próprios produtores. Embora essas mudas produzam normalmente, não há garantias em relação a riscos, uma vez que sanidade e genética são muito importantes para obter maior e melhor produtividade, com mais confiança.
Melhor qualidade
O morango ideal é doce, grande, firme e bem vermelho. Como o pós-colheita da fruta é delicado, as variedades devem ser adaptadas às diferentes regiões e climas. O produtor precisa estar atento para que o consumidor tenha acesso a um morango de melhor qualidade.”Hoje a colheita no Brasil é feita quando o morango atinge 50% de maturação, em média. Mas quando chega a 80%, 85% de maturação, o sabor é excepcional. Há muito trabalho a ser feito e há muito espaço para crescer”, diz Lima.
O especialista alega que o investimento em qualidade “é um caminho sem volta”. Ele avalia que o consumo nacional pode crescer exponencialmente com variedades mais doces e o Brasil pode até se tornar um exportador de morango se utilizar os melhores cultivares e criar uma logística eficiente.
“Antes de exportar, no entanto, ainda há muito para crescer no mercado interno, há grandes oportunidades no consumo local. É preciso arrumar a casa, melhorar a qualidade e ampliar o consumo. Área e mão de obra são grandes desafios do produtor da fruta”, aponta.
Sem chão
A produção de morango no Brasil ainda é familiar, ocupa áreas médias e pequenas. Mas mudou bastante nos últimos anos e está se profissionalizando. Os agricultores têm mais acesso ao mercado com o uso de tecnologias e logística adequada. Uma das principais mudanças foi o desenvolvimento da produção semi-hidropônica, que vem sendo cada vez mais adotada pelos produtores brasileiros.
De acordo com Lima, há 20 anos o morango era plantado exclusivamente no solo, não utilizava cobertura nem irrigação por gotejamento. A produção era rápida, reduzida e localizada. “O perfil do produtor sempre foi familiar, mas há alguns anos os jovens voltaram para o campo e profissionalizaram os processos. O consumo foi aumentando com maiores investimentos em tecnologia”, afirma.
O surgimento da produção semi-hidropônica levou o morango para lugares que não plantavam a fruta. A técnica é chamada de semi-hidropônica porque são utilizados substratos no plantio, feito em estufas. O investimento nesse tipo de cultivo é mais alto, mas a segurança é maior na colheita. Lima explica que hoje cerca de 40% da plantação de morango no Brasil é semi-hidropônica. No Sul, essa técnica é predominante. No sudeste, a maior parte dos agricultores ainda utiliza o plantio em solo.
O morango precisa de frio. Mas tecnologias como irrigação por gotejamento, túnel para proteger da chuva, estufas e produção semi-hidropônica permitem que a produção alcance novos territórios. “Com as tecnologias disponíveis e novas variedades é possível produzir o ano todo no Brasil”, explica o agrônomo. Ele lembra que metade do morango produzido no Brasil é de São Paulo e Minas Gerais. Mas há produtores no Rio Grande do Sul, Paraná, Espírito Santo, Brasília, Mato Grosso do Sul, norte da Bahia, serra do Rio de Janeiro e até mesmo na serra do Ceará.
O morango produzido no solo é um pouco mais saboroso, mas é mais sensível. O semi-hidropônico tem melhor pós-colheita e mais plantas por hectare. Enquanto no solo a média é de 50 mil plantas por hectare, no semi-hidropônico pode chegar a 80 mil, conforme o especialista. Ele comenta que, para quem está começando, o investimento por planta de morango é de R$ 14 em média para cultivo no solo, com custo operacional de R$ 7 a R$ 8 por planta.
No caso do hidropônico, o investimento varia entre R$ 15 e R$ 25 por planta, com custo operacional de R$ 8. Por ser uma cultura manual, o morango exige mão de obra, precisa de oito pessoas trabalhando por hectare. O agrônomo alerta que o morango semi-hidropônico é mais sensível em relação à nutrição. Segundo ele, o retorno do investimento acontece, em média, em três anos. “O ideal seria trocar as plantas todos os anos, mas elas podem ser mantidas por até três anos. Reforçando que a transição de variedade garante maior e melhor produção”, alega.
Ronaldo Herculano de Lima – Foto Divulgação Ascenza
Baixo resíduo
Lima lembra que ainda há um estigma muito forte de que o morango é uma das culturas com mais resíduos de defensivos. Isso porque nos anos 2010 a Anvisa divulgava análises que apontavam os produtos agrícolas com maior quantidade de resíduos, entre eles o morango. “Hoje isso mudou drasticamente. Muitos produtores não usam defensivos em suas lavouras de morango e, quando necessário, o uso é pontual. Há muitos produtos registrados para a cultura do morango de baixa toxicidade, inclusive biológicos”, afirma.
A engenheira agrônoma e gerente de marketing da Ascenza Brasil, Patrícia Cesarino, que participa do Podcast Ascenza, reforça que em visitas ao campo, conversando com o produtor, percebe-se que cada vez mais eles têm focado em produtos de qualidade, com mais consciência sobre fazer um trabalho bem feito e entregar o melhor produto para o consumidor. “Mas essa informação não chega ao consumidor”, lamenta.
Lima avalia que o consumo do morango poderia ser maior se as pessoas conhecessem melhor os processo de produção. “Falta acesso a esse conhecimento. O produtor está preocupado com isso. As redes de varejo e distribuidoras exigem rastreabilidade para garantir credibilidade. O brasileiro pode consumir morango sem medo”, afirma.
As doenças e pragas que atacam as lavouras de morango variam conforme a região e o clima. O ácaro e o oídio afetam plantações de morango no Brasil inteiro. Há ainda o fungus gnats, larvas que atacam o substrato do morango e a mosca da fruta. Mais recentemente tem surgido uma praga complicada, o besouro prateado, que afeta menos o Sul do país.
O manejo integrado contribui para o sucesso da produtividade. É preciso reconhecer as pragas e doenças, criar armadilhas e saber a hora certa de entrar com a proteção do cultivo. A polinização por abelhas, usada em outros países produtores, chega a ampliar em até 30% a produtividade do morango, explica Lima. A dificuldade é que as maiores abelhas brasileiras, mais eficientes na polinização, são as africanas, que têm ferrão, o que pode atrapalhar a colheita e exigir maior proteção do trabalhador.
Planejamento e conhecimento
Planejamento é a dica mais importante para quem quer iniciar a produção de morango. É preciso estar atento a variedades, diversificação, época de plantio, clima, manejo, qualidade mesmo que em menor quantidade e cuidados na pós-colheita. “Tudo isso exige planejamento”, diz Lima. “E conhecimento”, acrescenta a especialista em comunicação da Ascenza Brasil, Sabrina Goveia, que também participou do Podcast Ascenza, junto com o engenheiro agrônomo especialista em hortifrútis da Ascenza Brasil, Daniel Mandetta.
Lima afirma que o morango é uma cultura rentável, mas é preciso seguir os processos. A colheita e pós-colheita exigem cuidados, principalmente no verão. “Trata-se de uma cadeia sensível. Uma hora do morango fora da câmara fria é um dia a menos de vida na prateleira”, aponta. A colheita deve ser feita em horários de menor calor, a cesta não pode encher demais, é preciso delicadeza para manusear a fruta, separar rapidamente as que não têm qualidade, evitar excesso de irrigação e evitar adensamento para facilitar a colheita, que deve ser feita devagar.
As embalagens são diferenciais nas vendas. Com uma embalagem adequada, o morango pode ficar até sete dias na prateleira e, em alguns casos, chega a até 15 dias. Em embalagens comuns, o tempo médio de prateleira é de três dias.
Segundo a Embrapa, em dez anos o Brasil aumentou em 37% a área plantada de morango e ampliou a produção em 68%. Em 2014, o Brasil tinha 3,5 mil hectares de plantação de morango, com 112 mil toneladas produzidas. Em 2023 foram 4,8 mil hectares e 187,8 mil toneladas.
O Podcast Ascenza pode ser conferido no site www.ascenza.com.br,
Fonte: assessoria







