A agenda de sustentabilidade no Brasil está mudando de patamar — e as empresas estão no centro dessa transformação. É o que mostra o novo Radar de Tendências do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), divulgado nesta semana.
O estudo analisa mais de 20 relatórios e artigos para mapear como as companhias brasileiras estão avançando no tema. O resultado aponta cinco movimentos principais que estão moldando esse cenário: descarbonização em escala, capital verde, materialidade real, natureza como ativo estratégico e cooperação internacional.
Mais do que listar iniciativas, o relatório indica uma virada importante: sustentabilidade deixou de ser discurso e passou a influenciar diretamente competitividade, acesso a capital e posicionamento de mercado.
O dinheiro existe — o desafio agora é executar
Um dos pontos mais relevantes do levantamento é a mudança na lógica do financiamento climático. Segundo o CEBDS, o problema já não é mais a falta de recursos, mas sim a capacidade de estruturar projetos sustentáveis que sejam viáveis e escaláveis.
Os números ajudam a entender esse momento: as emissões de títulos sustentáveis brasileiros saltaram de US$ 2,06 bilhões em 2022 para US$ 6,55 bilhões em 2024 — um crescimento de 218% em apenas dois anos. Globalmente, o volume destinado à transição climática chegou a US$ 1,9 trilhão.
Esse movimento também vem acompanhado de uma evolução na forma como as empresas comunicam suas estratégias. Dados socioambientais deixaram de ser acessórios e passaram a impactar diretamente decisões de investimento e desempenho financeiro.
Hoje, 75% das empresas brasileiras já adotam o conceito de dupla materialidade — ou seja, reportam tanto os impactos que causam no meio ambiente quanto os riscos e oportunidades que essas questões geram para o negócio.
Na prática, isso já se traduz em resultados: empresas mais avançadas na agenda ESG relatam ganhos de reputação, fortalecimento de marca e acesso a novos mercados.
Descarbonização ganha escala — e deixa de ser individual
Outro destaque do radar é o avanço na mensuração e redução de emissões. Entre as 50 maiores empresas do país, duas em cada três já monitoram suas emissões de carbono.
Em 2025, mais de 1.300 inventários de Gases de Efeito Estufa foram publicados no Registro Público de Emissões — um aumento de 25% em relação ao ano anterior.
Mas a principal mudança está na forma de atuação: a descarbonização deixou de ser um esforço isolado e passou a acontecer em nível setorial e de cadeias produtivas.
As Coalizões Setoriais do CEBDS, que reúnem mais de 270 instituições, já identificaram potenciais relevantes de redução:
- até 70% no setor de transportes
- até 90% na mineração
- investimentos de R$ 450 milhões no setor elétrico
- no agronegócio, projeções de redução entre 500 e 600 milhões de toneladas até 2050
Além disso, instituições financeiras sinalizam a intenção de direcionar US$ 10,4 bilhões até 2027 para projetos de Soluções Baseadas na Natureza — como restauração de ecossistemas, manejo do solo e proteção hídrica.
Um novo cenário global, mais fragmentado — e mais pragmático
O relatório também aponta mudanças importantes no cenário internacional. O modelo tradicional de cooperação global está se reconfigurando, dando lugar a uma dinâmica mais fragmentada e prática.
Nesse novo contexto, ganham força:
- parcerias público-privadas
- coalizões regionais e subnacionais
- arranjos mais flexíveis de cooperação
União Europeia e economias emergentes, especialmente os países do Brics, passam a ter papel mais ativo na construção dessas novas conexões.
E, novamente, o setor empresarial assume protagonismo — não apenas como participante, mas como agente de implementação, articulando projetos, investimentos e parcerias.
Sustentabilidade como critério de competitividade
O que o Radar de Tendências deixa claro é que a sustentabilidade já não é opcional. Ela se tornou parte das regras do jogo.
Empresas que integram impacto socioambiental, inovação e eficiência aos seus modelos de negócio não estão apenas respondendo a pressões externas — estão redefinindo o que significa ser competitivo.
Para o foodservice, esse movimento é especialmente relevante. Cadeias produtivas mais sustentáveis, rastreabilidade, eficiência energética e gestão de resíduos passam a ser fatores cada vez mais decisivos — tanto para o consumidor quanto para investidores.
Por Cristina Canas | Adaptado para o Portal Foodbiz







