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Biodiesel, óleo de soja e impactos na cadeia: análise da Argus

O crescimento do biodiesel vem ampliando o protagonismo do óleo de soja no Brasil e levantando debates que vão além do setor energético, alcançando também a indústria de alimentos e o foodservice. Para entender como esse movimento vem se consolidando e quais são as perspectivas para os próximos anos, o Portal Foodbiz ouviu Natália Dalle Cort, responsável pela precificação de biocombustíveis da Argus.

Na entrevista, a especialista analisa a evolução do consumo de óleo de soja pelo biodiesel, as projeções do mercado e os impactos desse avanço sobre oferta, preços e competitividade da cadeia.

Quais são as principais projeções para o mercado brasileiro de biodiesel até 2030?

O maior consumo de óleo de soja pela indústria de biodiesel decorre da elevação gradual da mistura obrigatória do biocombustível no diesel, conforme determina a Lei do Combustível do Futuro.  

Os testes com o biocombustível no país começaram em 2004 e, nos três anos seguintes, o setor pode adotar voluntariamente a mistura de 2% (B2). A obrigatoriedade do teor B2 entrou em vigor apenas em 2008. A partir daí, com o amadurecimento do mercado, realização de testes de viabilidade técnica e investimentos em novas usinas, o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) passou a ampliar gradualmente o percentual. 

Desde agosto de 2025, os distribuidores de combustíveis precisam misturar 15% (B15) de biodiesel no diesel. A expectativa é que a mescla aumente para 20% (B20) até 2030, com planos de um patamar de 25% (B25) até 2035. 

O óleo de soja sempre foi a principal matéria-prima para a produção do biocombustível, justamente porque o Brasil é o maior produtor do grão do mundo, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. Em 2025, o insumo teve participação de mais de 73% na produção de biodiesel, conforme dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).  

Existem outras matérias-primas que podem ser utilizadas para a produção de biodiesel, mas por enquanto é difícil ver qualquer uma delas ocupando o mesmo espaço do óleo de soja. No curto e médio prazo, o óleo deve se manter como principal insumo.  

Vale lembrar que o biocombustível produzido a partir do óleo de soja tem fácil usabilidade quando comparado ao biodiesel de gorduras animais, por exemplo. No período de inverno, sobretudo no Sul do país, o produto pode congelar em função das baixas temperaturas.  

 O que os dados mais recentes revelam sobre a evolução do consumo de óleo de soja pelo biodiesel desde 2020?

O aumento do consumo de óleo de soja pela indústria de biodiesel reflete o avanço da agenda de descarbonização e o estímulo à produção nacional. A ampla disponibilidade de matéria-prima, com safras recordes e infraestrutura adequada para escoamento, também contribuiu para que o óleo de soja mantenha a predominância na fabricação de biodiesel.  

Segundo a ANP, as usinas de biodiesel possuem capacidade instalada de 15,7 milhões de m³, considerando operação contínua ao longo do ano. Ainda assim, mais de 5 milhões de m³ permanecem ociosos – um volume que poderia ser direcionado à produção de biocombustível para exportação. 

No entanto, uma das preocupações do CNPE é o impacto dos preços do insumo no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) – não à toa o aumento da mescla de 14% para 15% foi adiado de março para agosto de 2025.  

Que impactos indiretos o crescimento do biodiesel pode gerar para o setor de foodservice, especialmente em custos e abastecimento?

Mesmo com o aumento do uso de óleo de soja na indústria de biodiesel, não deve faltar insumo para o consumo humano. O suprimento alimentício deve ser priorizado pelo governo antes de qualquer outra coisa. 

A cada ano que passa, as safras de soja batem novos recordes, o que garante o abastecimento no mercado doméstico. A projeção atual para o ciclo de 2025-26 é de 176,1 milhões de t, ante 171,5 milhões de t no período anterior, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). 

Além disso, a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) estima que o processamento de soja no Brasil pode chegar a 84,5 milhões de t, de soja por ano, caso as instalações operem sem pausas. Esse volume poderia gerar cerca de 16 milhões de t de óleo de soja, que poderiam suprir tanto a indústria do biodiesel – que demandará 9,2 milhões de t em 2026, segundo a empresa de Pesquisa Energética (EPE) – quanto o setor alimentício – que consumiu em média 4,6 milhões de t em 2025, segundo cálculos a partir de dados da Abiove.  

A grande questão do aumento do processamento de soja é o destino que será dado ao farelo. Esmagadoras seguem em busca de novos mercados, mas o cenário ainda é incerto para o suprimento. A alta oferta e baixa demanda pressionariam as margens do farelo e, consequentemente, elevariam os valores do óleo de soja. 

Outro fator decisivo é o preço da soja no mercado interno e para exportação. O produtor escolherá o que mais vale a pena, exportar o grão ou esmagá-lo para uso no mercado doméstico.  

As exportações brasileiras de soja subiram 9,5pc em 2025 e atingiram um recorde histórico, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic). No ano passado, as exportações totalizaram 108,2 milhões de toneladas (t), ante 98,8 milhões de t embarcados em 2024. O volume supera o recorde anterior de 101,9 milhões de t exportados em 2023. 

Ao mesmo tempo, o consumo de óleo de soja no mercado interno também tem se fortalecido. De 2022 a 2025, o consumo interno aumentou de 7,3 milhões de t para 10,5 milhões de t, segundo a Abiove.  

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