A Kraft Heinz decidiu suspender o plano de separar suas operações em duas empresas, anunciado há apenas cinco meses. A mudança de rota vem com a chegada do novo CEO, Steve Cahillane, que assumiu o comando em 1º de janeiro com a avaliação de que muitos dos desafios enfrentados pela companhia são “solucionáveis”.
Em vez de seguir com a divisão entre negócios de maior e menor crescimento, a fabricante do ketchup Heinz e do cream cheese Philadelphia vai concentrar esforços na recuperação do desempenho da empresa como um todo. Para isso, anunciou um investimento de US$ 600 milhões voltado a marketing, vendas, pesquisa e desenvolvimento, além de iniciativas para reforçar a “superioridade do produto” e, possivelmente, ajustar preços.
A prioridade, segundo Cahillane, é clara: retomar o crescimento lucrativo.
A separação havia sido apresentada em setembro como uma forma de destravar valor, revertendo parte da fusão de US$ 46 bilhões que, há cerca de uma década, criou uma das maiores companhias globais de alimentos. A proposta previa a criação de duas estruturas: uma focada em molhos, condimentos e refeições prontas — reunindo marcas icônicas como Heinz, Philadelphia e Kraft Mac & Cheese — e outra dedicada a itens de mercearia com crescimento mais lento, como Oscar Mayer, Kraft Singles e Lunchables.
A estratégia, no entanto, gerou dúvidas no mercado sobre sua real capacidade de enfrentar os problemas estruturais da companhia. Entre os desafios estão a queda nas vendas, a migração dos consumidores para opções consideradas mais saudáveis, o impacto da inflação sobre o poder de compra e até o avanço dos medicamentos à base de GLP-1, que têm influenciado padrões de consumo alimentar.
Há também um componente simbólico na decisão. Antes de chegar à Kraft Heinz, Cahillane liderou a divisão dos negócios de snacks e cereais da Kellogg’s, operações que posteriormente foram vendidas por valores expressivos — a WK Kellogg para a Ferrero e a Kellanova para a Mars Wrigley, em um negócio de US$ 36 bilhões. Agora, porém, o executivo aposta em uma estratégia de fortalecimento interno em vez de fragmentação.
Em comunicado, o presidente do conselho, John T. Cahill, afirmou que a companhia já colhe os benefícios da experiência do novo CEO e que a pausa na separação permite concentrar recursos e energia na retomada do crescimento.
O mercado, contudo, reage com cautela. Para o analista Robert Moskow, da TD Cowen, a decisão pode ser interpretada de forma negativa, ao indicar que as áreas planejadas para a cisão ainda não estariam suficientemente robustas para operar de maneira independente.
Os resultados recentes reforçam o tamanho do desafio. No quarto trimestre, a Kraft Heinz registrou queda de 4,2% nas vendas líquidas orgânicas, totalizando US$ 6,3 bilhões. Para o ano fiscal de 2026, a projeção é de recuo entre 1,5% e 3,5% em relação ao ano anterior.







