Abimapi aponta o futuro e as tendências inovadoras para indústria de alimentos
Cientistas se reúnem para discutir a importância do alimento industrializado e mostrar como a tecnologia é aliada da nutrição acessível e sustentável
O produto industrializado precisa deixar de ser um estigma e voltar a ser compreendido como uma ferramenta de segurança alimentar e democratização nutricional. Este é o consenso que pauta os debates promovidos pela Abimapi (Associação Brasileira das Indústrias de Biscoitos, Massas Alimentícias e Pães & Bolos Industrializados). A instituição tem reunido vozes da ciência para discutir os próximos passos da inovação alimentar e levantar as tendências que têm guiado as estratégias das empresas que buscam aliar inovação e escala.
“O processamento inteligente é a nossa principal alavanca para levar nutrição à mesa do brasileiro de forma acessível. A indústria pode assumir a liderança, transformando ciência em alimentos práticos, nutritivos e transparentes, mas sem abrir mão da indulgência, ou seja, dos momentos de prazer. Temos promovido essas discussões para prever tendências e avaliar os próximos passos do setor no Brasil, decisões essenciais para o desenvolvimento de toda a cadeia produtiva e também para garantir qualidade e confiabilidade ao consumidor” avalia Claudio Zanão, presidente executivo da Abimapi.
Durante o 19º Congresso Internacional das Indústrias Abimapi, a cientista de alimentos norteamericana Kantha Shelke foi categórica ao defender que a tecnologia industrial é, na verdade, uma aliada histórica da sobrevivência humana. “A inovação humana mais importante da história do mundo não foi a inteligência artificial, nem a roda; é cozinhar”, pontuou. Para ela, a grande tendência tecnológica atual é o upcycling, ou seja, o reaproveitamento criativo de resíduos altamente nutritivos na indústria para substituir sabores artificiais e outros produtos.
Além de olhar para a fábrica, a inovação precisa mapear o corpo humano e as cozinhas modernas. Kantha Shelke falou sobre a importância de considerar o microbioma humano. “Só 50% de nós é humano. A outra metade são micróbios, bactérias… Nós somos como um portaaviões. Como cientistas de alimentos, temos que redefinir os ingredientes que usamos para ter uma relação melhor com esses habitantes. A indústria deve focar em fibras e carboidratos complexos que alimentem essas bactérias, responsáveis pela imunidade e saciedade”. Para ela, é possível enriquecer os produtos, promovendo nutrição e ingredientes que complementam uma dieta equilibrada, com praticidade e eficiência.
Michelle Frame, especialista norte-americana com vasta experiência em pesquisa e desenvolvimento industrial, que dividiu o palco com Kantha no encontro “Pirâmides em diálogo”, concorda com a colega e complementa que “a indústria deve assumir a liderança na transparência através das embalagens e rótulos educacionais, antecipando-se às exigências governamentais para conquistar a confiança do consumidor”. Além disso, ponderou a questão do preço. “Se você processar menos e deixar o ingrediente mais próximo da sua condição natural não tem por que ser mais caro”, refletiu.
Saudabilidade com indulgência
A busca pela saúde deixou de ser sinônimo de dietas altamente restritivas ou alimentos sem sabor. Hoje, o mercado exige uma nutrição preventiva que promova o envelhecimento ativo, o bem-estar mental e a saciedade, mas sem que o consumidor precise abrir mão da praticidade, do prazer e da experiência sensorial que os produtos industrializados oferecem.
A pesquisadora e nutricionista Dra. Sônia Tucunduva ressalta que o terrorismo nutricional perdeu espaço para o chamado letramento nutricional, onde o equilíbrio é a chave. “Nada é proibido, nada deve ser evitado, tudo deve ser recomendado nas porções adequadas”, defende a especialista. Segundo ela, a indústria tem o papel de aliar os benefícios dos ingredientes funcionais à satisfação natural de comer. “A gente come também por prazer. Não é só a recomendação nutricional, não é só o que a Organização Mundial da Saúde fala. Naqueles pilares da saudabilidade de uma vida mais adequada, nós temos a questão do prazer”, explica.
Além disso, se antes o desafio era apenas logístico ou produtivo, hoje a indústria enfrenta a barreira algorítmica. A especialista ressalta que a inteligência artificial e as redes sociais fragmentaram a autoridade sobre o que é saudável. “O influenciador falou, a população segue. A indústria de alimentos brasileira, detentora de uma das maiores biodiversidades do planeta, tem nas mãos a oportunidade de liderar essa narrativa globalmente. Ao invés de importar soluções, o setor deve usar o marketing científico para traduzir os benefícios de seus produtos (como a inclusão de fibras complexas nativas) e provar que tecnologia, natureza e processamento inteligente são a receita exata para o futuro da saúde global”, alertou.
Inovação de dentro para fora
Ao mesmo tempo, as mudanças tecnológicas dentro da casa do consumidor ditam o sucesso de um produto. Tucunduva destaca que a indústria precisa estar atenta às novas ferramentas domésticas e aos novos comportamentos. “A febre no Brasil é a air fryer. Todo mundo quer ter uma. Por quê? Porque você consegue preparações com menor teor de gordura e com uma palatabilidade muito boa, o crocante”, analisou a doutora. Se a indústria quer inovar, precisa criar formulações que performam com excelência nessas novas tecnologias de cocção sem óleo, além de abraçar tendências emergentes como o mercado plant-based e o uso de PANCs (Plantas Alimentícias Não Convencionais).
Para Shelke, as regras, o consumidor e a ciência estão mudando. “Mas o que nunca muda é que a comida produzida pela indústria é o que alimenta famílias, impulsiona comunidades e molda a saúde pública em uma escala que nenhuma empresa farmacêutica, aplicativo de bem-estar e nenhuma agência governamental pode igualar. Essa responsabilidade e esse poder pertencem à indústria”.
Fonte: assessoria







