FoodBiz

Tarifas dos EUA a produtos brasileiros paralisa exportações

canva

Mesmo antes de entrar em vigor, a tarifa de 50% anunciada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre produtos brasileiros já provoca impactos significativos no comércio exterior do Brasil. A medida, prevista para começar em 1º de agosto, levou diversos setores a suspenderem embarques e a enfrentarem cancelamentos de contratos.

Entre os segmentos mais afetados estão carne bovina, pescados, frutas, madeira, café e sucos cítricos. Em comum, todos enfrentam incertezas sobre a aplicação da nova tarifa a cargas já enviadas e lidam com a falta de alternativas viáveis de escoamento.

Produção interrompida e contratos suspensos

Com navios parados, contêineres à espera nos portos e embarques represados, empresas do agronegócio e da indústria madeireira correm contra o tempo. No Porto de Santos — principal terminal exportador do país — houve um salto de 96% no embarque de proteína animal e aumento de 17% no envio de café nas primeiras semanas de julho, na tentativa de antecipar entregas antes da entrada em vigor da tarifa.

Entidades de classe, como a ABIEC, que representa a indústria exportadora de carne bovina, calculam que cerca de 30 mil toneladas do produto estão em trânsito ou paradas nos portos, somando até US$ 160 milhões em mercadorias em risco de sobretaxa. Os Estados Unidos, vale lembrar, são o segundo maior destino da carne brasileira.

Setores mais vulneráveis: pescados, frutas e madeira

A indústria pesqueira brasileira, representada pela Abipesca, é uma das mais expostas. Sem mercado alternativo de absorção, e com os EUA comprando mais de 70% do pescado exportado pelo Brasil, o setor estima que pelo menos 1.500 toneladas deixaram de ser enviadas desde 10 de julho. A expectativa é de impactos sociais relevantes: mais de 20 mil trabalhadores da indústria e milhões de pessoas ligadas à cadeia produtiva devem ser afetadas.

No setor madeireiro, o cenário é igualmente desafiador. Segundo a ABIMCI, mais de 1.400 contêineres já estão em alto-mar e outros 1.100 aguardam embarque — todos sujeitos à nova tarifa. A estimativa de perdas chega a US$ 75 milhões. Empresas do setor já começaram a adotar férias coletivas forçadas para conter os danos.

Frutas, sucos e café: tensão à vista

O café brasileiro — produto em entressafra — ainda não sofreu paralisações, mas o Cecafé aponta para incertezas quanto à carga já enviada e à nova safra, que está sendo colhida. Com destinos frequentes aos portos de Nova York e New Orleans, há risco de que as cargas só cheguem aos EUA após 1º de agosto, momento em que a tarifa pode ser aplicada retroativamente.

A Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas (Abrafrutas) também monitora o impacto. Ainda sem embarques represados, o setor prevê riscos à medida que a colheita da manga se inicia no fim de julho. Os EUA compram mais de 77 mil toneladas de frutas como manga, uva e derivados como o açaí — um mercado de mais de US$ 133 milhões.

Já no caso do suco de laranja, exportação tradicional brasileira, a CitrusBR afirma que, apesar de contar com logística própria que pode redirecionar parte da produção à Europa, a perda de até 40% da demanda (representada pelos EUA) pode deixar um “buraco” difícil de compensar.

Governo busca reação

Diante da gravidade, o governo brasileiro articula soluções com o setor produtivo. Ainda que medidas paliativas possam ser adotadas internamente, a falta de clareza sobre como e quando a tarifa será aplicada (na chegada ou na data de embarque) complica qualquer plano de ação.

Além das perdas econômicas diretas, um estudo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) estima que a medida pode representar a eliminação de até 110 mil postos de trabalho no Brasil e uma retração de 0,16% no PIB.



Fonte: Exame

Compartilhar