A presença da família Diniz no Carrefour, uma das mais emblemáticas alianças do varejo brasileiro, chegou ao fim. A Península Participações, gestora da família do empresário Abílio Diniz — falecido em 2024 — concluiu sua saída do grupo francês, encerrando uma trajetória que marcou o setor por mais de uma década. A venda da fatia simboliza o encerramento definitivo do legado brasileiro dentro do conselho, ao mesmo tempo em que abre caminho para um novo nome de peso: a família Saadé, controladora do conglomerado CMA CGM, que passa a deter aproximadamente 4% do capital do Carrefour.
Com a reconfiguração societária, Rodolphe Saadé assumirá o assento no conselho a partir de dezembro de 2025. O movimento representa não apenas uma troca de guardiões no topo da governança, mas também a expansão de uma parceria que, segundo o próprio Saadé, deverá ser de longo prazo. Em comunicado, ele afirmou ter “prazer em se tornar acionista do Carrefour, um grupo que combina inovação, disciplina operacional e responsabilidade ambiental”. O CEO global do Carrefour, Alexandre Bompard, destacou a importância histórica da contribuição de Abílio e sua família, reforçando o respeito ao legado construído ao longo dos anos.
Os resultados financeiros mais recentes refletem a resiliência do grupo francês. No terceiro trimestre, o Carrefour registrou vendas globais de 22,6 bilhões de euros, crescimento de 2,1% na comparação anual (LFL). França e Espanha se destacaram com avanços consistentes, enquanto o Brasil — mesmo diante de juros elevados e restrições de consumo — apresentou expansão de 1,1% LFL, sustentada sobretudo pelo desempenho do atacarejo. A matriz ressaltou que o processo de reestruturação da dívida do Carrefour Brasil está “quase completo” e que o refinanciamento previsto deve gerar impacto positivo de cerca de 100 milhões de euros no lucro líquido do grupo a partir de 2026.
A saída da família Diniz marca também o fim de um ciclo na B3. Desde sua estreia em 2017, com um IPO de R$ 5,12 bilhões, o Carrefour manteve uma presença relevante no mercado brasileiro, ampliando principalmente sua rede de atacarejo por meio do Atacadão. Com o fechamento de capital e o encerramento do programa de BDRs em outubro, o grupo francês encerra sua trajetória no mercado acionário local — reforçando a centralização de sua governança global.
A era Diniz no varejo brasileiro, porém, permanece como um capítulo fundamental da história empresarial do país. Desde a inauguração do Pão de Açúcar nos anos 1950 até a criação dos primeiros hipermercados Jumbo, passando pela expansão do GPA em mercados internacionais e pela disputa com o Grupo Casino, Abílio Diniz se consolidou como um dos empreendedores mais influentes do varejo mundial. Mesmo após deixar o GPA de forma conturbada em 2013, o empresário voltou à cena com força ao se associar ao Carrefour, ampliando sua atuação no varejo global.
Conhecido pelo lema “corte, concentre e simplifique”, que aplicou para recuperar o GPA nos anos 1990, Abílio também deixou sua marca no esporte e no incentivo ao alto rendimento físico. Criou a tradicional Corrida de Revezamento Pão de Açúcar, hoje em sua 31ª edição sob novo formato, e contribuiu para iniciativas de treinamento de atletas de elite no país.
A saída definitiva dos Diniz do Carrefour encerra uma era, mas também inaugura um novo capítulo para o grupo francês — que agora mira o futuro ao lado da família Saadé, em um momento decisivo para o varejo global.
Fonte: forbes







