Durante décadas, produtos como caviar, foie gras, trufas e macadâmia estiveram associados a países europeus ou a mercados agrícolas tradicionais. Esse cenário mudou rapidamente. A China vem se consolidando como um dos principais polos globais na produção de alimentos considerados de luxo, abastecendo o mercado interno e ganhando espaço nas exportações.
Hoje, o país responde pela maior parte da produção mundial de caviar e já lidera as exportações globais da iguaria. Também ultrapassou a Austrália como segundo maior produtor de macadâmia do mundo e se tornou um player relevante em foie gras, cerejas e trufas silvestres. O movimento não é pontual: faz parte de uma estratégia coordenada de reposicionamento da agricultura chinesa.
Nos últimos 20 anos, governos provinciais passaram a incentivar agricultores a migrarem de culturas tradicionais para produtos de maior valor agregado. Regiões como Yunnan, Anhui e Shandong receberam subsídios, apoio técnico, infraestrutura de irrigação e acesso a tecnologia, criando condições para o desenvolvimento de cadeias produtivas mais sofisticadas.
No caso do foie gras, por exemplo, a China já responde por cerca de 43% das exportações globais, um salto significativo em relação a pouco mais de uma década atrás. A maior parte da produção ainda é direcionada ao mercado doméstico, mas a exportação ganhou força após a redução do consumo interno, impactado por restrições a banquetes oficiais e pela desaceleração econômica.
O mesmo padrão aparece no caviar. Marcas chinesas, como a Kaluga Queen, tornaram-se referência global, ocupando espaços deixados por produtores russos e europeus. A combinação de mão de obra mais barata, ciclos produtivos mais rápidos e regras menos rígidas de bem-estar animal ajudou a acelerar esse avanço.
A macadâmia ilustra bem o papel do Estado nesse processo. Em Yunnan, autoridades locais identificaram a noz como uma cultura estratégica para elevar a renda rural. Mesmo com desafios logísticos e limitações de solo — já que áreas férteis são reservadas para grãos básicos — a produção cresceu rapidamente. Entre 2016 e 2024, a participação da província na produção global saltou de 3% para cerca de 20%.
Esse movimento tem reflexos diretos no mercado internacional e também no foodservice. A maior oferta global tende a pressionar preços, mudar padrões de consumo e ampliar o acesso a ingredientes antes restritos a nichos muito específicos. Para operadores, chefs e indústrias, isso significa novas oportunidades — e também maior competição.
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Fonte: Folha / UOL







