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COP30: açaí e a polêmica da culinária amazônica

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A COP30, conferência climática da ONU marcada para novembro em Belém, mal começou e já entrou no centro de uma polêmica: a presença (ou ausência) de pratos típicos da Amazônia nos cardápios oficiais.

Tudo começou quando a Organização de Estados Ibero-americanos (OEI), responsável pelo edital de contratação de restaurantes e quiosques do evento, proibiu a oferta de alimentos como açaí, tucupi e maniçoba. A justificativa foi risco sanitário — o açaí poderia transmitir a doença de Chagas se não pasteurizado, enquanto o tucupi e a maniçoba foram classificados como alimentos de alto risco quando preparados de forma incorreta. O veto, porém, não durou muito. Após forte reação de entidades, produtores e do governo, a OEI voltou atrás e publicou uma errata retirando a restrição.

Como surgiu o veto

O edital original, divulgado em 12 de agosto, não permitia a venda de pratos tradicionais do Pará nas áreas oficiais da COP30. Além dos amazônicos, também estavam proibidos itens como maionese caseira, carnes malpassadas, ostras cruas e sucos in natura. Embora o documento trouxesse medidas positivas — como a exigência de que ao menos 30% dos insumos fossem da agricultura familiar — a exclusão dos pratos paraenses chamou atenção pela contradição: Belém é reconhecida pela Unesco como Cidade Criativa da Gastronomia desde 2015.

Reações e críticas

A medida foi recebida como preconceituosa e desinformada. Joanna Martins, diretora do Instituto Paulo Martins, afirmou que a proibição ignora o fato de que esses alimentos já contam com certificações sanitárias e produtores que seguem normas rigorosas. Entidades como Abrasel, Fecomércio-PA, Sebrae e Slow Food Brasil divulgaram uma nota de repúdio, lembrando que açaí, tucupi e maniçoba são consumidos diariamente por milhões de pessoas e exportados para diversos países com segurança. O açaí, por exemplo, responde por mais de 93% da produção nacional no Pará e já esteve presente em edições anteriores da conferência, como a COP28 em Dubai.

Posição do governo

O ministro do Turismo, Celso Sabino, classificou a proibição como “erro grave” e garantiu que a gastronomia amazônica estará representada na COP30. Segundo ele, a conferência não pode ignorar a cultura alimentar da região que vai sediá-la: “A COP da floresta será também a COP da gastronomia paraense”, escreveu nas redes sociais.

E agora?

Com a errata publicada no dia 16, a lista de “itens proibidos” foi excluída. O novo texto deixa claro que apenas produtos em desacordo com as normas sanitárias nacionais poderão ser barrados. Na prática, isso abre espaço para que o açaí, o tucupi e a maniçoba estejam nos cardápios oficiais — desde que certificados e preparados conforme as exigências. A seleção final dos fornecedores ainda vai acontecer, mas a pressão de entidades locais e a mobilização política indicam que a culinária amazônica terá, sim, seu lugar de destaque na COP30.



Fonte: Exame

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