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Guerra do delivery transforma o Rio em laboratório de uma disputa bilionária

Ana Paula Amorim/Divulgação

O Rio de Janeiro virou palco de uma nova rodada da guerra do delivery. A chegada da Keeta, gigante chinesa do grupo Meituan, promete mexer com um mercado que movimenta cerca de 21 bilhões de dólares por ano no mundo e que, na capital fluminense, já era dominado pelo iFood (com aproximadamente 80% de participação) e tensionado pela 99 Food.

A Keeta inicia suas operações em março, com um plano de investimento de 5,6 bilhões de reais no Brasil ao longo de cinco anos. Na bagagem, traz a experiência da Meituan, que realiza cerca de 80 milhões de entregas diárias na China — inclusive com o uso de drones — e aposta em diferenciais como rede própria de entregadores e capacetes inteligentes com conexão bluetooth e navegação por áudio.

Para os restaurantes, a movimentação é acompanhada com atenção. Mais concorrência pode significar taxas mais equilibradas, melhores condições logísticas e maior poder de negociação. Thaíssa Szapiro, da Puli Trattoria, na Gávea, optou por estar presente nas três plataformas. A estratégia reflete uma postura cada vez mais comum: diversificar canais para reduzir riscos e ampliar alcance.

O peso do delivery no faturamento das casas é inegável. O chef Thomas Troisgros afirma que 30% da receita do restaurante Le Blond já vem das entregas. A demanda do público levou o grupo a incluir também o Toto e o bar Tijolada nas plataformas. Já o T.T. Burger mantém contrato de exclusividade com o iFood, modelo que envolve contrapartidas em visibilidade, promoções e estratégias comerciais.

A disputa, no entanto, não se resume a tecnologia e presença de marca. A fidelidade do consumidor é um dos principais desafios. Descontos agressivos, cupons e frete grátis são armas centrais nessa fase de expansão. A 99 Food, por exemplo, investiu 350 milhões de reais apenas no Rio, apostou em ações de grande visibilidade — como patrocínio no Carnaval e eventos em Copacabana — e ofereceu taxa zero para restaurantes no início da operação.

A Keeta entra no jogo com cupons que podem chegar a 200 reais, frete grátis e promessa de compensação imediata ao consumidor em caso de atraso. A estratégia de “queima de caixa”, porém, levanta dúvidas sobre sustentabilidade no longo prazo. Executivos do setor admitem que o crescimento impulsionado por incentivos financeiros pode ser artificial se não vier acompanhado de eficiência operacional.

Para o foodservice, o ponto crítico continua sendo a experiência. Logística falha, atrasos e erros de pedido seguem como principais fontes de insatisfação, tanto para empresários quanto para consumidores. Em um ambiente cada vez mais competitivo, tecnologia e investimento pesado não substituem operação bem ajustada.

O movimento no Rio sinaliza uma tendência mais ampla: o delivery deixa de ser apenas canal complementar e consolida-se como frente estratégica do negócio. Para operadores, a pergunta não é mais se devem estar nas plataformas, mas como negociar melhor, proteger margem e transformar o aumento de opções em vantagem competitiva.

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