Antes de whey protein, creatina e pré-treino dominarem as prateleiras, quem frequentava academia no Brasil tinha outro tipo de combustível.
E ele voltou a circular nos últimos dias no Instagram, em vídeos granulados e cheios de nostalgia: o comercial da geleia de mocotó Inbasa, vendida nos anos 1980 como fonte de proteína para quem queria ganhar músculo.
A propaganda reapareceu em reels e posts que repetem a pergunta que marcou época: “E você, come mocotó Inbasa? O que que você acha?”
A resposta vinha sempre acompanhada de um sorriso confiante e da câmera focada no corpo definido. O físico era o argumento.
Hoje, o produto é frequentemente chamado de “o whey protein dos anos 80”. Mas, apesar do sucesso cultural, o futuro da marca não acompanhou a fama.
Um suplemento antes do suplemento existir
A geleia de mocotó era feita a partir do colágeno extraído das patas do boi, misturado com açúcar e aromatizantes. Nutritionalmente, fornecia aminoácidos como glicina e prolina — importantes para tecidos conjuntivos, mas longe do perfil completo de aminoácidos associado à hipertrofia muscular.
Nada disso era um problema na época.
Nos anos 1980, o mercado de suplementação esportiva praticamente não existia no Brasil. O whey protein só começaria a se popularizar no início da década seguinte, primeiro como produto importado e depois em versões nacionais.
Até lá, o mocotó ocupou esse espaço. Tornou-se o “suplemento raiz” de quem frequentava academia, muito mais por construção simbólica do que por base científica.
A máquina de marketing por trás do pote
O sucesso do Mocotó Inbasa não veio apenas do produto, mas da estrutura que o sustentava.
A empresa, fundada no fim dos anos 1960, pertencia a Roberto Marinho, fundador e dono da TV Globo — uma configuração pouco comum no setor de alimentos.
Na prática, isso significava acesso privilegiado à principal vitrine de mídia do país. A Inbasa utilizava espaços ociosos da programação da Globo para veicular seus comerciais, com custos muito menores do que os enfrentados por anunciantes externos. A exposição em horários nobres era frequente.
Os filmes publicitários eram produzidos pela própria divisão da emissora responsável por efeitos especiais e aberturas de programas como o Fantástico. Para os padrões da época, era tecnologia de ponta.
A geleia aparecia como um cubo brilhante, quase energético, reforçando visualmente a ideia de força e vitalidade.
O jingle, o copo e o consumo inteligente
A comunicação não se restringia ao público fitness. O jingle dizia:
“Que surpresa é Mocotó Inbasa / A geleia que eu gosto mais de comer…”
A estratégia também mirava o público infantil, tentando posicionar o produto como um alimento nutritivo do dia a dia.
A embalagem ajudou a escalar o consumo. O mocotó era vendido em copos de vidro semelhantes ao copo americano ou ao de requeijão, com tampa metálica de pressão. O slogan reforçava o apelo: “A criança fica com a geleia, a mamãe fica com o copo.”
Nas classes C e D, o copo era reaproveitado como utensílio doméstico. Não era apenas comida — era consumo com reaproveitamento, um diferencial relevante para a época.
A venda e o início do fim
Nos anos 1990, o Grupo Globo iniciou o desmonte de operações fora do núcleo de mídia.
Roberto Marinho precisava capitalizar o grupo para investir na construção do Projac, inaugurado em 1995, além da expansão para TV por assinatura e telecomunicações. Negócios periféricos entraram na lista de venda.
Em março de 1997, a Inbasa foi adquirida pela Arisco, então comandada por João Alves de Queiroz Filho. O valor da transação nunca foi divulgado.
A produção saiu do Rio de Janeiro e foi transferida para Goiás. A fábrica de São João de Meriti foi desativada. A marca seguiu existindo, mas já sem a mesma força simbólica e midiática.
Quando a lógica de portfólio falou mais alto
O fim da Inbasa não foi imediato. Aconteceu em etapas.
Em 2000, a Arisco foi vendida para a americana Bestfoods por cerca de US$ 490 milhões. Pouco depois, a Unilever adquiriu a Bestfoods globalmente.
A nova controladora fez uma revisão de portfólio. A prioridade passou a ser marcas globais fortes, como Hellmann’s e Knorr, além de marcas locais líderes, como a própria Arisco em temperos.
A geleia de mocotó não entrou nessa equação.
Era um produto de nicho, de margem baixa e com processo industrial complexo, baseado no cozimento de colágeno animal. Manter uma linha dedicada não fazia sentido econômico.
No início dos anos 2000, a marca Inbasa foi descontinuada — sem anúncio oficial e sem substituto.
Conteúdo exame adaptado para o portal foodbiz







