O café sempre ocupou um lugar central na economia e na cultura do Brasil. Mas, nos bastidores dessa cadeia centenária, um desafio vem ganhando força: a dificuldade de engajar jovens produtores e manter as novas gerações interessadas na vida no campo. Mudanças climáticas, transformações no comportamento do consumidor e novas aspirações profissionais colocam pressão sobre um modelo produtivo que depende, cada vez mais, de continuidade e inovação.
Para marcas globais como o Nescafé, principal nome de café instantâneo da Nestlé, esse cenário deixou de ser apenas uma questão social e passou a ser um tema estratégico. Garantir o futuro do negócio significa investir diretamente em quem está na origem da cadeia.
Segundo Bárbara Velo, gerente de ESG da área de cafés da Nestlé, existe hoje uma desconexão importante entre quem produz e quem consome café. Muitos agricultores, inclusive, nunca provaram o produto final que sai de suas próprias fazendas. Esse distanciamento motivou a criação do projeto Fazedores de Café, iniciativa que busca ampliar o conhecimento técnico no campo e valorizar o papel do produtor.
A proposta envolve agricultores, baristas, torrefadores e especialistas em certificação em uma troca direta de experiências. Além de aprenderem mais sobre cultivo e qualidade, os produtores passam a entender melhor o que acontece “da porteira para fora” — desde a extração de um espresso até a avaliação sensorial do café.
Para a Nestlé, o investimento tem uma lógica clara: cadeias produtivas só são sustentáveis no longo prazo quando o produtor está engajado, informado e motivado. Em um mercado cada vez mais exigente, depender de uma base produtiva fragilizada representa um risco real para o abastecimento.
Há também um fator geracional decisivo. A saída de jovens do campo em busca de outras oportunidades preocupa empresas ligadas ao agronegócio. A estratégia do Nescafé passa por mostrar que o campo pode dialogar com tecnologia, conhecimento e novas formas de geração de renda — e que não é preciso escolher entre a vida rural e outras ambições profissionais.
Essa valorização do produtor também aparece na comunicação da marca. Em campanhas recentes, embalagens de café passaram a destacar rostos de agricultores, reforçando a ideia de que eles são agentes centrais de transformação da cadeia e não apenas fornecedores invisíveis.
O projeto se conecta ao Nescafé Plan, programa de sustentabilidade da empresa que, segundo a Nestlé, apresenta ganhos de produtividade significativamente superiores aos modelos tradicionais. A capacitação vai além das técnicas agrícolas: envolve reconhecer o café como um produto de valor agregado, alinhado a um consumidor mais atento à origem, ao preparo e ao perfil sensorial.
Nesse contexto de “quarta” ou até “quinta onda” do café, o Nescafé também tem se aproximado do universo dos cafés especiais. Parcerias com profissionais reconhecidos do setor, como Thiago Sabino, campeão brasileiro da Brewers Cup 2025, ajudam a aproximar o conhecimento técnico de baristas e o desenvolvimento de blends e lançamentos da marca.
A estratégia, no entanto, não abandona a escala industrial. O objetivo é combinar volume com qualidade e ampliar o acesso a cafés com atributos que antes ficavam restritos a nichos especializados. Levar um produto melhor para o supermercado, sem perder alcance, faz parte dessa equação.
Conteúdo originalmente publicado pela Bloomberg Línea







