Pedir comida, fazer compras de mercado e pagar tudo sem sair do aplicativo do banco passa a integrar, de vez, a disputa pelo consumidor de delivery no Brasil.
PicPay e Rappi anunciaram uma parceria que leva o serviço de entregas da plataforma colombiana para dentro do aplicativo da fintech. O movimento dá origem ao PicPay Delivery e evidencia como as fronteiras entre finanças, consumo e logística estão cada vez mais diluídas no centro da chamada guerra do delivery.
Com a integração, os usuários do PicPay passam a acessar restaurantes, itens de mercado e o catálogo do Rappi Turbo, serviço de entregas ultrarrápidas com prazo de até 10 minutos. Todo o processo — do pedido ao pagamento e acompanhamento da entrega — acontece dentro do app financeiro, com ofertas e descontos exclusivos.
Segundo as empresas, trata-se da primeira vez, no Brasil e na América Latina, que um banco digital oferece uma experiência completa de delivery integrada à sua plataforma, sem redirecionamento para aplicativos externos.
Nesta fase inicial, o serviço começa com uma seleção de restaurantes e mais de 6 mil itens disponíveis em São Paulo, Rio de Janeiro e Recife. A liberação para toda a base será gradual, prática comum em lançamentos de novas funcionalidades. A expectativa é que, até o fim de dezembro, o PicPay Delivery esteja disponível para todos os clientes.
Ecossistemas ganham espaço
Para o PicPay, a iniciativa reforça a estratégia de concentrar diferentes experiências de consumo em um único aplicativo. “Esse passo mostra que o cliente pode comprar tudo o que precisa sem sair do PicPay”, afirma Alexandre Moshe, vice-presidente executivo de Audiências e Ecossistema da empresa.
Já para o Rappi, a parceria amplia o alcance da plataforma ao conectá-la a uma base de mais de 64 milhões de usuários. Segundo dados da Euromonitor International, a empresa detém cerca de 7% do mercado brasileiro de entrega de refeições via plataformas.
Um mercado em transformação
O anúncio acontece em um momento de mudanças relevantes no foodservice brasileiro. Dados da Abrasel indicam que o setor movimentou R$ 455 bilhões em 2024, crescimento de 9,4% em relação ao ano anterior, com expectativa de avanço em 2025 impulsionado pelo delivery.
Levantamentos do Instituto Foodservice Brasil (IFB) mostram que o segmento atravessa um ponto de virada. Após a retração no período pós-pandemia, o tráfego de pedidos caiu 3% em 2024, enquanto o crescimento do mercado foi sustentado principalmente pelo aumento do ticket médio, que avançou 4% e levou o gasto total ao recorde de R$ 221 bilhões.
Parcerias mais profundas entre bancos e plataformas
Em um cenário de margens pressionadas, inflação de alimentos e competição intensa, parcerias entre bancos e plataformas de entrega vêm se tornando mais frequentes. Um exemplo recente foi a iniciativa conjunta entre iFood e Nubank, baseada em cupons e benefícios para pagamentos realizados com cartão ou NuPay.
A diferença no acordo entre PicPay e Rappi, segundo especialistas, está no nível de integração.
Para Ingrid Devisate, vice-presidente executiva do IFB, o movimento reflete uma estratégia estrutural das grandes plataformas digitais. “O delivery, isoladamente, é um negócio de margens apertadas e alto custo de aquisição de clientes. Por isso, as plataformas passaram a buscar novas formas de capturar valor ao longo da jornada do usuário, e os serviços financeiros cumprem esse papel”, explica.
Segundo ela, soluções como carteiras digitais, crédito e cashback aumentam o tempo de uso do aplicativo, a frequência de transações e o lifetime value do cliente. Além disso, a integração gera dados mais completos sobre o comportamento de consumo, permitindo ofertas mais inteligentes e decisões estratégicas baseadas em transações reais.
“Em vez de desenvolver toda a infraestrutura financeira internamente, o Rappi opta por se conectar a um ecossistema já consolidado. Não é apenas ‘virar banco’, mas controlar melhor a jornada financeira do consumo”, afirma.
A disputa pela principalidade
Na avaliação de Edson Santos, especialista em meios de pagamento, esse tipo de integração desloca a competição para antes do checkout. “O banco deixa de disputar apenas a aceitação do pagamento e passa a disputar a principalidade, ou seja, ser o meio naturalmente escolhido em gastos recorrentes”, diz.
Esse movimento aumenta a formação de hábito, reduz custos de aquisição e amplia o share of wallet, quando o consumidor passa a concentrar despesas recorrentes em uma mesma instituição financeira. Para os bancos, isso gera previsibilidade, engajamento e mais informações sobre o perfil financeiro do cliente.
Santos ressalta que o impacto real depende da profundidade da integração. Modelos baseados apenas em cupons tendem a ter efeito de curto prazo, enquanto experiências contínuas e integradas podem mudar estruturalmente a relação com o consumidor.
Mais um capítulo da guerra do delivery
Essas estratégias ganham ainda mais relevância em um ano marcado pela intensificação da guerra do delivery. No início de dezembro, a Keeta, marca internacional da chinesa Meituan, estreou no Brasil com a promessa de investir R$ 5,6 bilhões em cinco anos.
O mercado brasileiro de delivery deve movimentar US$ 21 bilhões em 2025, segundo a Statista, e já conta com players como iFood, Rappi e 99Food. Em resposta à maior concorrência, as empresas anunciaram aportes bilionários e ampliaram estratégias de diferenciação, seja por preço, tecnologia, logística ou parcerias estratégicas.
O iFood prevê investir R$ 17 bilhões até março de 2026. A Rappi anunciou aportes de R$ 1,4 bilhão até 2028, enquanto a 99Food, que retornou ao mercado brasileiro neste ano, deve investir R$ 1 bilhão no país.
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Fonte: Exame







