Em entrevista publicada pela HBR ORG (Harvard Business Review), os pesquisadores David Larcker, Brian Tayan e Amit Seru apresentam dados que indicam uma transformação relevante — e menos ideológica — na forma como investidores avaliam critérios ESG (ambientais, sociais e de governança).
A tese central não é que o ESG perdeu relevância. Segundo os autores, ele passou por uma recalibração. O entusiasmo inicial, especialmente entre investidores mais jovens, deu lugar a uma abordagem mais pragmática, orientada por risco e retorno.
O conteúdo é baseado em pesquisas longitudinais conduzidas desde 2022 com investidores de varejo nos Estados Unidos, além de grandes proprietários e gestores institucionais. Ao comparar os resultados ao longo dos anos, os pesquisadores identificaram uma convergência importante entre diferentes perfis de investidores.
A divisão geracional perdeu força
Em 2022, os dados mostravam uma diferença marcante entre gerações. Cerca de 70% dos investidores mais jovens afirmavam estar muito preocupados com riscos climáticos, frente a 35% dos mais velhos. A disposição para abrir mão de retorno financeiro em troca de impacto ambiental ou social também era significativamente maior entre millennials e geração Z.
Avançando para 2025, o cenário mudou. Hoje, aproximadamente 45% dos jovens investidores dizem se preocupar fortemente com questões ambientais ou sociais, contra 38% dos investidores mais velhos — uma diferença muito menor. No tema governança, a distância praticamente desapareceu.
A disposição para sacrificar retorno também diminuiu. O jovem investidor médio agora aceita abrir mão de cerca de 4% do patrimônio investido para apoiar causas ambientais, número próximo aos 3% observados entre investidores mais velhos. A diferença por nível de riqueza também encolheu.
Para os autores, isso indica que o ESG deixou de ser uma bandeira geracional e passou a ser tratado de forma mais racional e contextual.
ESG como “bem de luxo”?
Uma das hipóteses levantadas na entrevista da HBR ORG é que, para muitos investidores de varejo, o ESG se comporta como um “bem de luxo”.
Em períodos de crescimento econômico e maior previsibilidade de mercado, há maior disposição para priorizar causas de impacto difuso e de longo prazo. Em cenários mais desafiadores — com inflação, volatilidade ou crescimento mais lento — o foco tende a voltar para resultados financeiros diretos.
Isso não significa abandono de valores, mas revela que a disposição efetiva de pagar por eles é sensível ao contexto econômico.
Outro ponto observado é que os diferentes pilares do ESG não evoluem da mesma forma. As pautas sociais perderam força antes das ambientais, especialmente aquelas ligadas às mudanças climáticas, que se mostraram mais resilientes até 2025.
Instituições: menos idealismo, mais gestão de risco
Entre investidores institucionais, o movimento é distinto, mas complementar.
Cerca de três quartos afirmam considerar fatores ESG em suas decisões. No entanto, a motivação principal não é valorativa, e sim estratégica. O ESG é tratado como ferramenta de gestão de risco.
Governança segue como o fator mais relevante e, em grande parte, já precificado. Questões ambientais são analisadas sobretudo sob a ótica de risco climático em médio prazo. Já os fatores sociais têm peso mais limitado, com destaque para temas como segurança e privacidade de dados.
Segundo os pesquisadores, o ESG funciona como filtro: fragilidades graves podem inviabilizar um investimento, mas credenciais ESG positivas dificilmente compensam fundamentos financeiros fracos.
O que muda para empresas e executivos
A convergência entre varejo e institucional sinaliza um novo equilíbrio. O ESG não desapareceu, mas deixou para trás uma fase marcada por retórica expansiva e expectativa de crescimento contínuo da demanda baseada em valores.
A partir dos dados apresentados na entrevista da HBR ORG, a implicação para empresas é clara: estratégias ESG sustentadas apenas na premissa de altruísmo dos investidores tendem a ser frágeis. Já abordagens ancoradas em gestão de risco, transparência e impactos financeiros tangíveis têm maior probabilidade de se manter no longo prazo.
Mais do que um retrocesso, o que se observa é uma mudança de enquadramento. O ESG passa a ser tratado como qualquer outra variável estratégica — sujeito a restrições econômicas, trade-offs e ciclos de mercado.







