O Brasil lidera o ranking mundial de reciclagem de latas de alumínio, com 97% de reaproveitamento. Mas esse desempenho não se repete quando o assunto são outros resíduos: apenas 4% de todo o lixo gerado no país é reciclado, bem abaixo da média global, que gira em torno de 16%. O contraste revela um gargalo estrutural que afeta diretamente cadeias como a de alimentos, bebidas e bens de consumo.
Às vésperas da COP30, que acontece em Belém, o tema ganhou força com a publicação de um novo decreto federal que estabelece, pela primeira vez, metas nacionais de reciclagem. O objetivo é atingir 32% já em 2026 e chegar a 50% até 2040. Para embalagens reutilizadas em novos produtos, a meta é saltar de 22% para 40% no mesmo período.
O movimento pressiona empresas que colocam milhões de toneladas de embalagens no mercado todos os anos. Coca-Cola, Natura, Grupo Boticário e Unilever estão entre as companhias que aceleraram investimentos em economia circular, logística reversa e inclusão de cooperativas de catadores, buscando transformar um passivo ambiental em ativo econômico e social. Reportagem da EXAME, repercutida no Portal Foodbiz, detalha como essas estratégias estão sendo construídas na prática.
Natura aposta na Amazônia como laboratório de circularidade
Pioneira no uso de refis desde os anos 1980, a Natura estruturou uma das estratégias mais amplas de economia circular do país. A empresa assumiu o compromisso de ter, até 2030, 100% de suas embalagens reutilizáveis, recicláveis, refiláveis ou compostáveis, com a ambição de se tornar uma companhia totalmente regenerativa até 2050.
O Programa Natura Elos, criado em 2020, já reciclou mais de 41 mil toneladas de resíduos e envolve 58 cooperativas no Brasil, reunindo mais de 2,5 mil catadores. Só na Amazônia, o projeto Rios Vivos mobiliza comunidades ribeirinhas para retirar plásticos dos rios, transformando esse material em novas embalagens, como os frascos da linha Ekos, que chegam a reduzir em mais de 80% o uso de plástico virgem.
Além do impacto ambiental, a estratégia busca deixar legados locais, como ecobarreiras em Belém e parcerias com startups que reaproveitam resíduos na construção civil. O desafio, segundo a empresa, ainda é técnico e econômico: nem todo material reciclado é compatível com produtos cosméticos, e o custo da resina reciclada segue mais alto do que o do plástico virgem.
No Grupo Boticário, reciclagem vira parte da experiência de consumo
Desde 2006, o Grupo Boticário mantém o programa Boti Recicla, hoje o maior sistema de logística reversa do setor de beleza no Brasil. São mais de 4,5 mil pontos de coleta espalhados pelo país, que recebem embalagens de qualquer marca.
O diferencial está no fechamento do ciclo: parte do material coletado vira mobiliário das próprias lojas. Cada unidade sustentável da marca incorpora cerca de uma tonelada de plástico reciclado em sua estrutura, substituindo o MDF tradicional.
A empresa também testa novos formatos de engajamento do consumidor, como ações em que embalagens recicláveis funcionam como moeda de troca por créditos e experiências. Em paralelo, iniciativas como o Estação Preço de Fábrica, em parceria com a Green Mining, garantem pagamento direto e acima da média de mercado para catadores.
Para o Grupo Boticário, a circularidade é estratégica sobretudo porque o Escopo 3 representa cerca de 98% das emissões da companhia, o que torna a gestão de embalagens um ponto central da agenda climática.
Unilever avança, mas aponta limites do modelo atual
A Unilever é a única entre as grandes marcas citadas que já superou sua meta de logística reversa no Brasil. Desde 2024, a empresa coleta e processa o equivalente a 115% do peso das embalagens plásticas que coloca no mercado.
Esse avanço exigiu investimentos elevados. Entre 2018 e 2024, a companhia reduziu em 57 mil toneladas o uso de plástico virgem e evitou a emissão de cerca de 100 mil toneladas de CO₂. Hoje, produtos como OMO, Comfort, Hellmann’s e TRESemmé já utilizam embalagens feitas integralmente com plástico reciclado.
Mesmo assim, a empresa destaca que a baixa competitividade da resina reciclada ainda limita a escala da circularidade. Para enfrentar esse cenário, defende políticas públicas de estímulo e investe em projetos que asseguram remuneração justa a catadores, eliminando intermediários.
Coca-Cola investe em infraestrutura e neutralidade do PET
Com mais de 80 anos de atuação no Brasil, o Sistema Coca-Cola estruturou uma estratégia focada em fortalecer todos os elos da cadeia de reciclagem. Um dos pilares é a SustentaPET, agregadora de PET pós-consumo criada em 2019, que já reciclou o equivalente a mais de 6 bilhões de garrafas.
No Norte e Nordeste, a Solar Coca-Cola avança rumo à neutralidade total do PET em estados como Ceará, Bahia, Rio Grande do Norte e, em breve, Pará. A empresa também anunciou a construção de uma fábrica de reciclagem em Ananindeua (PA), com capacidade para processar até mil toneladas de PET por mês, reforçando a infraestrutura local.
Globalmente, a Coca-Cola Company estabeleceu metas para ampliar o uso de material reciclado e garantir a coleta da maioria das embalagens colocadas no mercado até 2035. No Brasil, o principal obstáculo segue sendo a falta de coleta seletiva estruturada em grande parte dos municípios.
O desafio comum: custo, escala e coleta
Apesar das abordagens distintas, todas as empresas convergem em um ponto: hoje, a economia ainda não favorece a circularidade. A resina reciclada custa mais caro que a virgem, e a coleta seletiva não alcança a maior parte da população.
Especialistas apontam que o novo decreto federal pode ajudar a corrigir distorções ao criar metas obrigatórias e priorizar cooperativas de catadores. Mas alertam que fiscalização, rastreabilidade e infraestrutura são fatores decisivos para que o sistema funcione.
Antes mesmo da reciclagem, há um gargalo básico: fazer com que o resíduo chegue corretamente separado às cooperativas. Sem coleta seletiva porta a porta, grande parte do material reciclável continua indo para lixões ou aterros, desperdiçando valor econômico e social.
Para o foodservice e as cadeias de consumo, o recado é claro: sustentabilidade deixou de ser apenas reputação e passou a ser tema de eficiência, inovação e competitividade. Transformar resíduos em negócio exige investimento, articulação e visão de longo prazo — mas também abre espaço para novos modelos produtivos, inclusão social e redução de riscos regulatórios.







