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Por que a manteiga virou a tendência mais inesperada nos EUA em 2025

Canva /KitchenAid/Tillamook/Clove/Land O' Lakes

Campanhas virais, colaborações inusitadas e um apelo emocional transformaram a manteiga — e os laticínios como um todo — em símbolo de indulgência acessível no mercado americano.

Em 2025, poucos ingredientes ganharam tanto protagonismo cultural nos Estados Unidos quanto a manteiga. O que antes era um item básico da despensa passou a ocupar o centro das estratégias de marketing, do design e até da moda, revelando muito sobre o comportamento do consumidor em um cenário de inflação persistente.

Marcas souberam explorar esse movimento. A Pop Secret, tradicional fabricante de pipoca para micro-ondas, apresentou sua “Chief of Butter”: a atriz Melissa Joan Hart, ícone das séries dos anos 1990. A campanha incluiu até uma linha telefônica para que consumidores “confessassem seus segredos”, misturando nostalgia, humor e manteiga em um único storytelling.

Já a Land O’Lakes, cooperativa agrícola do Meio-Oeste americano, levou o conceito para o lifestyle ao lançar um tênis em tom amarelo-manteiga em parceria com a marca de calçados Clove. O alimento deixou de ser apenas ingrediente e passou a funcionar como linguagem estética.

Hacks virais, fusões improváveis e conforto compartilhado

A Tillamook, cooperativa de produtores do Oregon, apostou na cultura dos hacks de comida ao lançar a “Butternaise”, um híbrido de manteiga com maionese criado em parceria com a japonesa Kewpie. O produto esgotou em menos de dez minutos, mostrando o apetite do público por releituras indulgentes e curiosas.

No foodservice, o chef Dominique Ansel viralizou ao apresentar um sorvete soft serve mergulhado em manteiga quente e finalizado com sal. A ideia foi rapidamente adotada por redes regionais de supermercados, reforçando como tendências nascem em experiências sensoriais simples, mas altamente compartilháveis.

Enquanto isso, as butter boards — tábuas de manteiga que substituem a charcutaria tradicional — retornaram com menos performance estética e mais foco em convivência e conforto. Até velas comestíveis feitas de manteiga voltaram ao radar, reforçando o ingrediente como objeto cultural, não apenas alimentar.

Indulgência acessível em tempos de inflação

À primeira vista, o boom da manteiga pode parecer contraditório em um cenário de alimentos caros. Mas é justamente aí que a tendência se sustenta. Mesmo com previsões de alta nos preços ao longo de 2025, o consumidor americano não deixou de consumir — apenas ajustou prioridades.

A manteiga premium se encaixa perfeitamente nessa lógica. Ela transforma uma torrada simples ou um preparo caseiro em algo mais completo, sem exigir grandes gastos. Em um momento em que carne bovina e ovos enfrentam altas expressivas, a manteiga segue relativamente acessível, funcionando como pequeno luxo cotidiano.

Excedente de produção e estratégia da indústria

Além do fator emocional, há uma explicação estrutural. O consumo de leite fluido nos EUA vem caindo há décadas, o que levou a indústria a redirecionar sua produção para itens de maior valor agregado. O foco passou a ser a gordura do leite, base para queijo, creme e manteiga.

Relatórios do USDA indicam níveis elevados e estáveis de gordura láctea, resultando em ampla oferta de creme e manteiga em todo o país. Com processadores operando próximos da capacidade máxima e estoques elevados, criar novos motivos de consumo se tornou essencial — e o marketing entrou em cena.

Parcerias criativas, produtos de edição limitada e campanhas culturais ajudam a escoar esse excedente, ao mesmo tempo em que reposicionam a manteiga como algo desejável e atual.

Nostalgia, estética e o “amarelo-manteiga”

A força simbólica da manteiga também se expressa no design. A KitchenAid, marca icônica de eletrodomésticos, elegeu o amarelo-manteiga como sua Cor do Ano, evocando cozinhas de meados do século, geladeiras vintage e a ideia de lar como espaço de conforto.

O interessante é que alimento e estética avançaram juntos. A manteiga passou a funcionar como um código visual e culinário de abundância tranquila, criando um ciclo em que consumo, design e memória afetiva se reforçam mutuamente.

O “efeito batom” chega à despensa

O fenômeno segue uma lógica conhecida dos economistas: o chamado “efeito batom”, quando consumidores recorrem a pequenos luxos acessíveis em períodos de incerteza econômica. Se antes isso se manifestava em cosméticos, agora aparece com força na alimentação.

Assim como aconteceu com o azeite premium, o café especial ou até o peixe enlatado gourmetizado, a manteiga deixou de ser apenas funcional para se tornar marcador de identidade. Ela comunica cuidado, conforto e uma forma possível de indulgência — sem culpa e sem exagero.

No foodservice e no varejo, entender esse movimento ajuda a antecipar como ingredientes simples podem ganhar novos significados quando contexto econômico, excesso de oferta e desejo emocional se encontram.

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Fonte: Forbes Agro

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