Pesquisadores da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) e da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA), ambas da USP, desenvolveram um leite fermentado probiótico enriquecido com suco de cranberry que demonstrou potencial para prevenir infecções do trato urinário. A formulação combina os benefícios das bactérias probióticas do leite fermentado com os compostos bioativos da fruta, conhecida por sua ação na redução da adesão de bactérias, como a Escherichia coli, às paredes do trato urinário — condição que afeta cerca de 150 milhões de pessoas por ano no mundo.
Os testes laboratoriais identificaram alta presença de proantocianidinas do tipo A, substância associada ao efeito protetor contra infecções urinárias. Além disso, a bebida contém cepas de Lactobacillus acidophilus, que contribuem para o equilíbrio da flora intestinal. Em testes de aceitação, a versão com 5% de suco de cranberry foi a preferida pelos consumidores por equilibrar sabor e benefícios funcionais.
Segundo a pesquisadora responsável, Karina de Fátima Bimbatti, alternativas naturais são cada vez mais importantes diante do aumento da resistência bacteriana causada pelo uso excessivo de antibióticos. Ela explica que a infecção urinária se torna recorrente quando o paciente apresenta mais de dois episódios em seis meses ou três em um ano.
O estudo reuniu também uma pesquisa de mercado com 687 participantes: 80% eram mulheres e metade já havia tido infecção urinária alguma vez; 10,8% relataram casos recorrentes. Quase metade dos entrevistados disse estar disposta a pagar R$ 5 ou mais por um produto com propriedades funcionais para prevenção da doença.
Como o produto foi desenvolvido
O suco de cranberry passou por análises de compostos bioativos antes de ser incorporado ao leite fermentado. Foram criadas três amostras: uma sem suco e duas com 5% e 10% de cranberry. Durante 28 dias de armazenamento refrigerado, os pesquisadores avaliaram características como acidez, pH, retenção de água e teor de proantocianidinas. Em testes sensoriais com 116 consumidores, a versão com 5% se destacou pelo sabor mais adocicado e melhor equilíbrio entre estabilidade e benefícios funcionais.
Apesar de o aumento de cranberry elevar o teor de compostos antioxidantes, a concentração maior reduziu a viabilidade das bactérias probióticas e a aceitação sensorial devido ao sabor mais ácido. A fórmula com 5% manteve o nível ideal de microrganismos vivos para ser considerada probiótica (mínimo de 6 log UFC/mL).
Potencial e próximos passos
Para a professora Carmem Sílvia Favaro Trindade, orientadora da pesquisa na FZEA, o desenvolvimento do leite fermentado é um avanço em alimentos funcionais voltados à saúde preventiva. A combinação de probióticos e cranberry sugere um efeito sinérgico capaz de beneficiar a microbiota urogenital. Contudo, a eficácia clínica ainda precisa ser confirmada por estudos com pacientes, e a comercialização dependerá do interesse da indústria.
A pesquisa, publicada na revista Food Research International, integra a dissertação de mestrado de Karina de Fátima Bimbatti e pode ser consultada neste link.
Fonte: Jornal da USP







