A indústria da suplementação vive um crescimento acelerado no Brasil, impulsionada por promessas de mais saúde, desempenho e bem-estar. Mas, por trás do discurso de praticidade e prevenção, especialistas alertam para riscos importantes relacionados ao consumo indiscriminado desses produtos — especialmente quando eles passam a substituir hábitos básicos de saúde e alimentação equilibrada.
Em 2025, o mercado brasileiro de suplementos movimentou cerca de R$ 8 bilhões, colocando o país entre os maiores consumidores do mundo. Diferentemente dos medicamentos, esses produtos são regulados como alimentos, o que exige menos comprovações de eficácia. Mesmo com o aumento da fiscalização da Anvisa, casos recentes de adulteração de creatina, whey protein e fabricação em condições inadequadas reforçaram a preocupação com a qualidade e segurança do setor.
O avanço da suplementação também acompanha mudanças culturais. Redes sociais, influenciadores fitness e discursos sobre performance têm estimulado o consumo cada vez mais cedo — inclusive entre crianças e adolescentes. No entanto, entidades médicas reforçam que, para indivíduos saudáveis, as necessidades nutricionais normalmente são atendidas por uma alimentação balanceada.
Segundo recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria, nos primeiros anos de vida apenas alguns nutrientes específicos, como vitamina D e ferro, costumam ter indicação frequente. Ainda assim, o mercado explora preocupações comuns das famílias com promessas ligadas a imunidade, foco, crescimento, sono e desenvolvimento cognitivo.
O problema não está apenas no excesso de marketing, mas também na falsa percepção de que suplementos são sempre inofensivos. O consumo inadequado pode provocar intoxicações, sobrecarga no organismo e outros efeitos adversos. Vitaminas lipossolúveis, como A e D, por exemplo, podem se acumular no corpo quando ingeridas em excesso. Minerais como ferro e iodo também exigem acompanhamento profissional.
Em casos relacionados a condições como autismo e TDAH, especialistas alertam ainda para a proliferação de “protocolos milagrosos” sem respaldo científico. Embora algumas crianças possam apresentar deficiências nutricionais específicas, qualquer suplementação deve ser individualizada e acompanhada por profissionais de saúde.
Ao mesmo tempo, a suplementação séria e baseada em evidências continua tendo papel importante em diferentes contextos clínicos. Ferro no combate à anemia, vitamina D para saúde óssea e imunidade, além de outros micronutrientes em situações específicas, seguem sendo ferramentas relevantes quando há diagnóstico e orientação adequada.
Para especialistas, o ponto central é evitar que suplementos ocupem o lugar de pilares fundamentais da saúde, como alimentação variada, sono adequado, atividade física e rotina equilibrada. Em um mercado movido por promessas rápidas e forte influência digital, informação qualificada e orientação profissional se tornam cada vez mais essenciais.
Fonte: artigo publicado originalmente por Daniel Becker em O Globo.







