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FoodBiz

“canetas emagrecedoras” despertam reações majoritariamente negativas

O termo “caneta emagrecedora” deixou de ser assunto de bastidor de profissionais da saúde e influenciadores fitness para ocupar territórios bem mais desconfortáveis, como os da segurança pública e da vigilância sanitária. A cada nova notícia ou polêmica, a repercussão nas redes sociais é imediata. Um levantamento de escuta social feito na plataforma Brandwatch pela professora, PhD e pesquisadora de Marketing Digital da FGV, Lilian Carvalho, filtrou exclusivamente postagens em português do Brasil e mostrou que a conversa sobre Ozempic, Mounjaro e correlatos somou mais de 29 mil menções no recorte analisado entre 22 de junho e 20 de julho. E o tom predominante da audiência não é de entusiasmo, é de alerta.

“Dos posts, comentários e notícias compartilhadas que emitiram alguma opinião sobre o tema, 5.875 menções carregam sentimento negativo, contra 5.005 neutras e apenas 1.136 positivas. Essa é uma proporção reveladora, pois para cada manifestação de elogio ao efeito emagrecedor, existem mais de cinco falas de desconfiança, crítica ou relato de problema. Isso inverte a lógica de anos anteriores, quando o volume de conversa era dominado por celebridades que destacavam emagrecimento e “receitas de sucesso”. Hoje, o centro de gravidade migrou para risco, fiscalização e crime”, avalia Lilian Carvalho.

A pesquisadora também destaca que diante dos casos recentes de contrabando no Brasil, a nuvem de palavras do levantamento em português entrega o recado antes de qualquer análise. Ao lado de termos esperados como “perda de peso”, “efeito colateral” e “GLP-1”, aparecem com frequência “Polícia Civil” (1.877 menções), “Cuiabá”, “Paraguai”, “MT” e “Agência Nacional de Vigilância Sanitária”. “Isso não é ruído, é o próprio conteúdo da pauta. A conversa nacional sobre canetas emagrecedoras está confundida com a cobertura de operações contra o contrabando e a falsificação desses medicamentos”, afirma.

O caso mais ilustrativo aconteceu em Mato Grosso, onde a Polícia Civil deflagrou uma operação com 35 ordens judiciais em oito cidades contra uma facção suspeita de distribuir canetas emagrecedoras ilegais. Em dezembro passado, mais de dez canetas e frascos irregulares foram apreendidos numa clínica de Barra do Garças, cujo médico responsável deve responder por falsificação e adulteração de produtos terapêuticos. Em Cuiabá e Várzea Grande, o produto virou até item de assalto: criminosos arrombaram parede de farmácia para furtar estoques de canetas, e a Polícia Civil prendeu suspeitos em caso similar.

Julgamento das redes é ponto de sensível

Ainda de acordo com o levantamento, o segundo grande bloco temático da nuvem de palavras gira em torno de saúde. “Efeito colateral”, “dor de cabeça”, “tratamento da obesidade” e “princípio ativo” aparecem entre os termos mais citados. Esse cenário reforça a visão de especialistas que chamam atenção para um ponto ainda pouco discutido: o que acontece com a pessoa depois que o corpo muda, no âmbito do convívio social, especialmente no âmbito digital, em que muitos usuários se sentem à vontade para promover julgamentos.  

Para a nutricionista Brunna Boaventura, PhD com pós-doutorado em obesidade vinculado à Harvard Medical School, o avanço dessas alternativas deve ser acompanhado de uma discussão mais ampla sobre saúde mental e estigma corporal. Uma das preocupações centrais, segundo ela, é justamente não tornar as redes sociais um novo tribunal do corpo. “É necessário combater a ideia de que quem recorre a tratamentos médicos para obesidade está “escolhendo o caminho mais fácil”, e esse julgamento aparece tanto com a bariátrica quanto com as canetas. Mas ninguém deveria ser reduzido ao método que utiliza para tratar uma condição de saúde. O mais importante é que exista indicação adequada, acompanhamento profissional e uma abordagem que respeite a história e a individualidade daquela pessoa”, diz.

Ela cita o estudo publicado no International Journal of Obesity, que ajuda a entender esse fenômeno. A pesquisa avaliou como os adultos reagiam a uma mulher que havia perdido 15% do peso corporal, comparando dois cenários: perda de peso por dieta e exercício ou por uso de agonista do receptor GLP-1. O experimento também comparava a percepção sobre uma mulher magra e uma mulher com obesidade. Como resultado, a mulher que emagreceu com GLP-1 foi avaliada de forma mais negativa do que aquela que emagreceu com dieta e exercício, independentemente do tamanho corporal. O motivo central foi a crença de que ela teria usado um “atalho” para emagrecer. 

No Brasil, aponta Boaventura, esse debate ganha contornos próprios. “Somos um país em que a aparência física tem enorme peso social, cultural e econômico. A pressão por magreza atravessa a moda, o mercado de trabalho, a medicina estética, as redes sociais e até as relações familiares. Ao mesmo tempo, a obesidade segue sendo tratada muitas vezes menos como condição crônica e mais como falha individual. Nesse ambiente, o uso de medicamentos para emagrecimento vira facilmente munição para julgamentos morais”, diz. 

Com a ampliação do acesso a novos tratamentos, Brunna Boaventura defende que o debate público também avance para as questões de saúde mental. “Estamos falando de pessoas que muitas vezes passaram anos ouvindo críticas sobre o próprio corpo. Quando o peso muda, essas marcas não desaparecem de um dia para o outro. Por isso, o cuidado precisa incluir o corpo, a alimentação, o comportamento e também a forma como essa pessoa se enxerga”, conclui.

Em abril de 2025, a Anvisa aprovou regras mais rígidas para a venda dos agonistas de GLP-1 no Brasil, com retenção de receita em farmácias e drogarias. A medida foi tomada após aumento de notificações de eventos adversos associados ao uso fora das indicações aprovadas, especialmente em contextos de busca por emagrecimento rápido e sem acompanhamento adequado.

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