Lay’s aparece como a marca mais exposta, enquanto chocolates e snacks concentram mais da metade do valor potencialmente afetado, segundo a Brand Finance
A popularização dos medicamentos GLP-1 para perda de peso pode provocar mudanças relevantes no mercado global de alimentos. Um levantamento da consultoria Brand Finance estima que US$ 73 bilhões em valor de marca estejam expostos às transformações nos hábitos de consumo associadas ao avanço desses medicamentos.
A análise considera as 100 marcas de alimentos mais valiosas do mundo, avaliadas em US$ 278 bilhões. Isso significa que aproximadamente 26% desse valor está potencialmente exposto aos efeitos das mudanças de comportamento relacionadas ao uso dos GLP-1.
A maior exposição foi identificada na Lay’s, da PepsiCo. Dos US$ 15,1 bilhões atribuídos à marca, US$ 6,8 bilhões estariam associados a categorias consideradas vulneráveis ao fenômeno. Isso representa cerca de 45% de seu valor.
Outras marcas conhecidas globalmente também aparecem entre as mais expostas, incluindo Doritos, Hershey’s, Cheetos, Kellogg’s e Reese’s. Sete das dez marcas com maior exposição têm sede nos Estados Unidos.
Snacks e chocolates concentram exposição
Os resultados mostram que o impacto não deve ocorrer de maneira uniforme na indústria.
Produtos de confeitaria, chocolates e snacks representam 53% de todo o valor de marca considerado em risco, embora essas categorias respondam por apenas 30% do valor total analisado pela Brand Finance.
A explicação está relacionada às mudanças observadas no comportamento dos consumidores que utilizam medicamentos da classe GLP-1, que atuam, entre outros mecanismos, na regulação do apetite e da saciedade.
Nos Estados Unidos, cerca de 11% dos adultos afirmavam utilizar medicamentos GLP-1 para perda de peso em setembro de 2026, segundo a Gallup. Em 2024, esse percentual era de 3%.
Estudos também começam a identificar reflexos desse movimento nas compras de alimentos. Uma pesquisa da Universidade Cornell apontou redução de 6% nos gastos com supermercado em domicílios nos quais pelo menos uma pessoa utiliza medicamentos para emagrecimento.
Outro levantamento, divulgado pela Foundation for Agrifood Innovation and Responsible Leadership (FAIR) em 2025, indicou que usuários de GLP-1 consumiam, em média, 700 calorias a menos por dia e apresentavam maior tendência a reduzir alimentos processados, bebidas açucaradas e grãos refinados, entre outras categorias.
Mudanças pequenas podem gerar grandes impactos
Para a Brand Finance, o principal risco para as empresas não está necessariamente no abandono completo de determinadas categorias, mas na redução da frequência e do volume consumido.
“Os GLP-1 podem redesenhar o cenário competitivo da indústria alimentícia”, afirmou Henry Farr, diretor de avaliação da Brand Finance.
Segundo o executivo, milhões de decisões individuais podem resultar em porções menores, compras menos frequentes ou migração para outras categorias. Quando esse comportamento é observado na escala das maiores marcas globais, mudanças relativamente pequenas podem produzir consequências comerciais relevantes.
A consultoria destaca, porém, que várias das marcas mais expostas continuam apresentando desempenho sólido. Esse cenário pode dar às companhias espaço para responder às transformações por meio de inovação, reformulação de portfólio e aquisições.
Indústria já adapta produtos aos usuários de GLP-1
Grandes fabricantes de alimentos já começaram a desenvolver produtos e estratégias relacionados à expansão dos medicamentos para controle de peso.
A Nestlé lançou nos Estados Unidos a Vital Pursuit, marca criada para consumidores que utilizam GLP-1 e para pessoas interessadas em controle de peso. A linha inclui refeições com foco em proteínas, fibras e porções adequadas a esse público.
A Danone também entrou nesse mercado com uma bebida da marca Oikos direcionada às necessidades nutricionais de consumidores que utilizam medicamentos GLP-1, com atenção especialmente à ingestão de proteínas e à manutenção da massa muscular.
Já a Conagra Brands passou a identificar algumas refeições congeladas Healthy Choice como opções compatíveis com as necessidades de consumidores que utilizam GLP-1.
Movimentos de aquisição também podem ajudar empresas tradicionais a ampliar presença em categorias percebidas como mais alinhadas aos novos hábitos de consumo. A Ferrero, por exemplo, adquiriu recentemente a Purely Elizabeth, marca de granola e produtos à base de aveia.
Bebidas podem encontrar oportunidades
Se chocolates, confeitaria e snacks aparecem entre as categorias mais expostas, algumas marcas de bebidas podem encontrar oportunidades com a mudança no comportamento dos consumidores.
A análise da Brand Finance aponta marcas como Gatorade e Aquafina, da PepsiCo, Minute Maid, da Coca-Cola, e Monster entre aquelas que podem se beneficiar de uma maior procura por hidratação e produtos associados à funcionalidade.
O avanço dos GLP-1, portanto, adiciona uma nova variável às estratégias da indústria de alimentos e bebidas. Mais do que acompanhar o crescimento desses medicamentos, fabricantes começam a avaliar como mudanças no tamanho das porções, frequência de consumo e escolha de categorias podem influenciar seus portfólios e o valor de suas marcas nos próximos anos.
Fonte: Food Dive







