O anúncio do investimento da Amazon na Rappi movimentou o mercado de consumo no Brasil e em toda a América Latina. Segundo a Bloomberg, a gigante do e-commerce destinou US$ 25 milhões em notas conversíveis na startup colombiana, hoje avaliada em mais de US$ 5 bilhões. Caso algumas metas sejam atingidas, a participação da Amazon pode chegar a 12%.
Mais do que um aporte financeiro, trata-se de uma aliança estratégica: de um lado, a força tecnológica e de nuvem da Amazon; de outro, a capilaridade da Rappi, presente em nove países da região e mais de 350 cidades.
Para a consultora Simone Galante, da Galunion, o acordo é uma jogada de “ganha-ganha”:
“A Amazon se fortalece em um mercado onde ainda não tem a mesma penetração que o Mercado Livre, enquanto a Rappi ganha musculatura tecnológica e acesso a capital para competir com gigantes.”
A disputa pelo dia a dia do consumidor
A América Latina é dominada pelo Mercado Livre, que no Brasil já fatura quase R$ 139 bilhões anuais, superando até grupos do varejo físico como Carrefour. A Amazon, com R$ 39 bilhões em vendas, ainda busca ampliar sua relevância no cotidiano. A Rappi pode ser o atalho para essa expansão.
O setor de delivery, por sua vez, está em plena ebulição. Estimativas da Statista indicam que o segmento no Brasil deve movimentar US$ 21,1 bilhões em 2025. E dentro dele, o quick commerce — modelo de entregas ultrarrápidas — cresce em ritmo acelerado.
A Rappi foi pioneira na região com o Rappi Turbo, e a parceria com a Amazon pode acelerar esse modelo. Como analisa Simone:
“A Amazon teria entrada imediata nesse mercado, sem precisar construir a operação do zero.”
Concorrência cada vez mais acirrada
O cenário competitivo promete esquentar. A 99Food está de volta, a chinesa Meituan chega com a Keeta, e o iFood anunciou um investimento de R$ 17 bilhões para expandir entregas rápidas e manter a liderança.
Segundo Simone Galante, a disputa vai além de preço:
“A briga por preços corrói margens e não fideliza clientes. A experiência de compra e a conveniência serão cada vez mais decisivas.”
O papel do Brasil para a Rappi
Fundada em 2015 em Bogotá, a Rappi já recebeu aportes de Softbank e Sequoia. Em 2024, levantou US$ 100 milhões em financiamento com Santander e Kirkoswald. A operação brasileira é a terceira mais relevante para a companhia, atrás apenas de Colômbia e México.
Por aqui, a empresa anunciou investimento de R$ 1,4 bilhão até 2027 e isenção de taxas para restaurantes parceiros — em troca de cardápios mais competitivos. O objetivo é ampliar de 30 mil para 100 mil restaurantes ativos e tornar a vertical de alimentação uma porta de entrada para o superapp, que também engloba farmácias, mercados e serviços financeiros.
Uma estratégia global
A aproximação com a Rappi segue o padrão da Amazon em outros mercados: nos EUA, a aquisição da Whole Foods; na Europa, aportes em empresas como Deliveroo e Grubhub. O objetivo é sempre o mesmo: garantir serviços de alta recorrência e ampliar o contato com o consumidor em sua rotina.
“Esse não é um investimento isolado, mas uma jogada estratégica”, reforça Simone. “A Amazon se insere em um serviço de altíssima frequência, aprofundando sua presença no dia a dia dos consumidores.”
Esse movimento mostra que a disputa no consumo digital na América Latina será cada vez mais marcada pela velocidade, conveniência e integração entre varejo físico, online e delivery. Para o foodservice, o impacto vai além da entrega: abre novas oportunidades de acesso, de relacionamento com clientes e de inserção em plataformas que querem ser cada vez mais indispensáveis no cotidiano do consumidor.
Fonte: Exame







