A safra brasileira de trigo 2026/27 começou sob um cenário de desafios que pode impactar toda a cadeia de alimentos. Além da redução da rentabilidade para os produtores, a confirmação de um evento forte de El Niño aumenta os riscos climáticos para a cultura e reforça preocupações sobre oferta, qualidade dos grãos e custos para a indústria.
Segundo estimativas do Itaú BBA, a produção nacional deve atingir cerca de 6,2 milhões de toneladas, volume aproximadamente 20% inferior ao registrado na temporada anterior. O recuo é resultado da combinação entre menor área plantada e redução da produtividade.
Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) apontam que o plantio já alcançou 45,3% da área prevista para a safra. Apesar das condições favoráveis observadas até o momento, especialmente na Região Sul, principal polo produtor do país, o mercado acompanha com atenção os possíveis efeitos climáticos nos próximos meses.
Menor área plantada preocupa o setor
A rentabilidade mais apertada vem levando produtores a reduzir investimentos e a destinar menos áreas ao cultivo do cereal. De acordo com as projeções da Conab, a área plantada deve encolher 13,4%, enquanto a produtividade pode registrar queda de 7,6%.
O cenário ganhou um novo componente de risco após a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) confirmar a formação do El Niño, com 63% de probabilidade de que o fenômeno alcance intensidade muito forte entre novembro e janeiro.
Embora o aumento das chuvas possa favorecer a disponibilidade hídrica durante parte do ciclo produtivo, o excesso de precipitações também eleva o risco de doenças e pode comprometer a qualidade dos grãos na fase final da safra.
Impactos para a indústria de alimentos
Para a indústria de alimentos, o trigo é uma matéria-prima estratégica utilizada na fabricação de pães, massas, biscoitos e diversos produtos processados. Uma produção menor tende a ampliar a dependência brasileira das importações, especialmente da Argentina, principal fornecedora do cereal para o mercado nacional.
Na avaliação do Itaú BBA, a combinação entre oferta doméstica mais restrita e necessidade de importação deve sustentar os preços ao longo da entressafra. O comportamento do câmbio e a competitividade do trigo argentino serão fatores determinantes para a formação de preços nos próximos meses.
Mesmo em um contexto de oferta global relativamente confortável, o mercado brasileiro deve continuar operando com preços mais firmes, cenário que pode gerar pressão sobre os custos da indústria e exigir estratégias adicionais de gestão de suprimentos.
Para empresas de foodservice e fabricantes de alimentos, o acompanhamento da evolução da safra e dos movimentos do mercado internacional será fundamental para antecipar impactos e mitigar riscos em uma cadeia altamente dependente do cereal.
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