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EUA apertam regras para produtos com THC: o que muda no mercado de bebidas

divulgação

Legisladores dos Estados Unidos decidiram encerrar uma brecha regulatória que permitia a venda de alimentos e bebidas com THC derivado do cânhamo. A mudança atende a pressões de grandes fabricantes de bebidas alcoólicas, que veem o avanço dos canabinoides como uma ameaça em meio à queda no consumo de álcool.

A nova regra estabelece um limite rígido: a partir de 13 de novembro de 2026, produtos derivados do cânhamo só poderão ser comercializados se tiverem no máximo 0,4 mg de THC por embalagem — um número extremamente baixo para os padrões atuais do mercado.

Segundo a US Hemp Roundtable, esse limite pode retirar até 95% dos produtos hoje disponíveis, já que a maioria ultrapassa facilmente o novo teto. Em 2024, a indústria de cânhamo movimentou cerca de US$ 28,4 bilhões, e os produtos com THC em baixa dosagem eram vistos como uma alternativa “leve” para consumidores que buscam novas experiências psicoativas fora do álcool.

Como chegamos até aqui

A popularização desses produtos começou em 2018, quando o Congresso descriminalizou o cânhamo ao aprovar a nova Lei Agrícola. A decisão removeu a planta da lista de substâncias controladas e abriu caminho para o uso em cosméticos, alimentos, têxteis e bebidas.

Mas havia uma lacuna: a lei especificava que o cânhamo não poderia ter mais de 0,3% de delta-9 THC em “peso seco”, sem detalhar como isso se aplicaria a gomas ou bebidas. Na prática, empresas passaram a vender produtos com doses consideráveis de THC enquanto permaneciam dentro da interpretação legal.

Com isso, marcas como Cann, Wynk e outras inundaram o varejo com bebidas contendo delta-9 THC convertido quimicamente a partir de CBD — tudo dentro da margem da lei.

O avanço dos canabinoides e a disputa com o álcool

O mercado de derivados psicoativos do cânhamo cresceu muito rápido. O Brightfield Group projeta que a categoria poderá atingir US$ 3,8 bilhões em 2025, frente aos US$ 200 milhões de 2020. Em vários estados, o consumo desses produtos já supera o da cannabis tradicional, ainda ilegal para uso recreativo na maior parte do país.

Esse crescimento ocorre enquanto a indústria de bebidas alcoólicas enxerga uma mudança clara no comportamento de consumo. Cada vez mais pessoas buscam reduzir o álcool por questões de saúde, substituindo-o por alternativas com THC, ingredientes funcionais ou experiências sensoriais de menor impacto.

Tentativas frustradas de entrada no mercado

Algumas gigantes do setor alcoólico chegaram a testar o terreno após 2018, mas recuaram diante da complexidade regulatória e da baixa performance comercial. A Constellation Brands, por exemplo, investiu US$ 4 bilhões na Canopy Growth antes de se afastar da empresa no ano passado.

Por outro lado, quem permaneceu no jogo começou a ganhar espaço justamente no momento em que a regulamentação ficou mais clara. A Tilray, uma das líderes do setor, ampliou sua presença em bebidas à base de cânhamo e registrou resultados recordes no último ano. Hoje, afirma deter 60% do mercado norte-americano em produtos derivados do cânhamo.

A companhia e outros representantes do varejo fazem lobby por limites menos rígidos, defendendo que produtos de baixa dosagem estimulam um consumo mais responsável.

Pressão das bebidas alcoólicas

Associações do setor de álcool, como o Beer Institute, mobilizaram uma campanha intensa para influenciar o Congresso. O argumento central: sem regras rígidas, o mercado de THC derivado do cânhamo criaria uma concorrência desigual e deixaria consumidores expostos a produtos pouco testados e sem fiscalização.

Esses grupos defendem que, caso os produtos continuem autorizados, passem a seguir normas equivalentes às aplicadas ao álcool — com licenciamento adequado, tributação mais alta e controles de segurança.

Por que esse tema importa para o mercado brasileiro?

Mesmo que o Brasil ainda esteja longe de discutir a liberação de produtos com THC no foodservice, o movimento dos EUA ajuda a revelar tendências importantes:

  • Consumidores buscam alternativas ao álcool
  • Produtos psicoativos de baixa dosagem estão ganhando espaço
  • Grandes indústrias começam a disputar o mercado funcional e canabinoide
  • Reguladores estão reagindo para equilibrar competição e segurança

Acompanhar esse cenário é essencial para empresas que monitoram novas categorias de bebidas, hábitos emergentes e inovações que podem moldar o comportamento de consumo global.

Para acompanhar análises estratégicas e tendências do setor, confira também conteúdos recentes no Portal Foodbiz.

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Fonte: Food Dive

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