A foodtech holandesa Those Vegan Cowboys deu um passo relevante rumo à comercialização de queijos sem origem animal ao concluir sua primeira rodada de investimentos. A startup captou €6,25 milhões (cerca de US$ 7,3 milhões) para escalar a produção de caseína desenvolvida por fermentação de precisão, com lançamento previsto para 2026.
A rodada foi liderada por Pieter Geelen, fundador da TomTom, e contou com a participação de empreendedores focados em impacto, como Wouter Veenboer, fundador da ProductHero, além de dois grandes players do setor lácteo. Entre eles está a Westland Kaas, uma das maiores produtoras de queijo da Holanda — sinal claro de que a indústria tradicional acompanha de perto os avanços das proteínas alternativas.
“Quando alimentos plant-based e livres de animais se tornam o padrão, o futuro da alimentação se mostra extremamente promissor. Esta rodada representa um avanço importante nessa direção”, afirma Jaap Korteweg, que fundou a Those Vegan Cowboys ao lado de Niko Koffeman, um ano após a venda da marca The Vegetarian Butcher.
Como próximo movimento estratégico, a empresa planeja abrir uma rodada de crowdfunding no início de 2026, permitindo que consumidores também se tornem investidores, nas mesmas condições oferecidas aos atuais aportadores.
Por que a indústria aposta na caseína sem vacas
A fermentação de precisão utiliza microrganismos programados com sequências específicas de DNA para produzir moléculas desejadas. No caso da Those Vegan Cowboys, essa tecnologia é aplicada à produção de caseína, principal proteína do leite e peça-chave para sabor, textura e funcionalidade dos laticínios.
É a caseína que garante características como derretimento, elasticidade e emulsificação correta de gordura e água, fundamentais para a experiência sensorial dos queijos. Não por acaso, trata-se de um mercado estimado em US$ 2,7 bilhões.
O problema é que a caseína tradicional está associada a uma cadeia altamente intensiva em emissões de carbono, uso de água e ocupação de terras. Segundo a startup, sua versão recombinante demanda apenas um quinto desses recursos, reduz emissões em até 95%, elimina o metano e pode ser combinada com ingredientes vegetais para criar diferentes alternativas aos laticínios.
Do ponto de vista técnico, a proteína microbiana também apresenta vantagens: até cinco vezes mais elasticidade e derretimento em temperaturas mais baixas, o que pode tornar a produção de queijos, iogurtes e até chocolates mais eficiente no longo prazo.
Há ainda ganhos nutricionais. Ao substituir gorduras animais por óleos vegetais específicos, é possível eliminar lactose, colesterol e gorduras saturadas — um ponto que desperta interesse crescente do próprio setor lácteo tradicional.
Em janeiro, a Those Vegan Cowboys iniciou testes em escala maior com o grupo alemão Hochland, avaliando aplicações em queijos duros e macios. Com a entrada da Westland Kaas como investidora, esse diálogo com a indústria se aprofunda.
“Sempre combinamos tradição e tecnologia. Seguimos investindo em inovação para reinventar o queijo para as próximas gerações”, afirma Frank Fischer, CFO da Westland Kaas.
Próximos passos: EUA e degustações abertas na Europa
Em entrevista concedida no início do ano, a CEO da startup, Hille van der Kaa, havia mencionado a meta de captar €15 milhões. O cenário, porém, segue desafiador para investimentos em proteínas alternativas, apesar da maior resiliência da fermentação de precisão em 2025.
Com os novos recursos, a empresa acelera os preparativos para o lançamento comercial da caseína. Atualmente, trabalha com cerca de dez parceiros industriais e já realizou a autoavaliação de segurança como GRAS (Generally Recognized as Safe) nos Estados Unidos.
Embora esse mecanismo permita a comercialização sem uma revisão imediata da FDA, a empresa — assim como outras do setor — busca a validação oficial por meio da chamada “no questions letter”, em função de possíveis mudanças regulatórias.
Na Europa, a startup iniciará degustações abertas ao público na Holanda, primeiro país da União Europeia a autorizar esse tipo de evento para alimentos obtidos por fermentação de precisão antes da liberação comercial.
“O investimento nos permite sair do laboratório e entrar no mercado”, resume van der Kaa. “Estamos no ponto de encontro entre sustentabilidade, tecnologia e indústria.”
Hoje, a americana New Culture é a única startup com aprovação total da FDA para comercializar caseína sem vacas. A expectativa é que a Those Vegan Cowboys se junte a ela em breve. Outras empresas que também atuam nesse segmento incluem Standing Ovation, Fooditive Group e Eden Brew — movimento que reforça uma tendência que o Portal Foodbiz vem acompanhando de perto no cenário global de foodtechs e inovação em proteínas.
.
Fonte: Vegan Business







