A cachaça vive um momento de virada no mercado internacional. Depois de décadas restrita a estereótipos ou resumida à caipirinha, a bebida brasileira começa a ganhar espaço em bares, restaurantes e cartas de coquetéis fora do país — inclusive em mercados mais maduros e exigentes.
Um exemplo recente veio do New York Times, que destacou a diversidade da cachaça ao afirmar que “o Brasil tem uma cachaça para cada estação do ano”, sugerindo drinks feitos com o destilado nacional. O reconhecimento ajuda a reforçar algo que profissionais do setor já vinham percebendo: a cachaça entrou, de fato, em fase de descoberta global.
Quem acompanha esse movimento de perto é a empresária Raquel Lopes, radicada em Portugal e à frente da Casa Cachaça, braço da importadora BRZ Select. Atuando como uma espécie de embaixadora informal da bebida, ela trabalha com cerca de 30 marcas brasileiras no exterior, incluindo pequenos alambiques familiares e rótulos premiados.
Segundo Raquel, o interesse internacional cresce, mas ainda exige trabalho de educação. Em muitos mercados, a cachaça segue sendo confundida com rum, inclusive por questões de classificação tarifária internacional. Explicar que são bebidas diferentes — com histórias, processos e identidades próprias — faz parte da rotina.
Ao apresentar a bebida, ela costuma destacar pontos que surpreendem bartenders e compradores estrangeiros: a cachaça é o destilado mais antigo das Américas, nasce como cachaça prata e pode ser envelhecida em mais de 40 tipos diferentes de madeira. Um repertório técnico que amplia possibilidades de sabor, uso e posicionamento.
Os números confirmam esse avanço. Depois de anos de exportações discretas, a cachaça passou a crescer com mais consistência. Em 2021, as vendas externas somaram US$ 13,1 milhões. Em 2022, o valor chegou a US$ 20,08 milhões, um salto de 53%, com mais de 9,3 milhões de litros exportados. Ainda é pouco se comparado a categorias como rum e tequila, mas indica uma trajetória clara de valorização.
Para Raquel, o momento é estratégico. Se houver investimento contínuo em promoção, presença internacional e comunicação, a cachaça pode ocupar o mesmo patamar dessas bebidas que hoje têm reconhecimento global. Isso passa, necessariamente, por sair da lógica da caipirinha como único símbolo e mostrar a versatilidade da bebida em coquetelaria, harmonizações e consumo puro.
Festivais, concursos e workshops com bartenders europeus têm sido uma das ferramentas para isso. A proposta é desafiar usos tradicionais, aproximar a cachaça de ingredientes como vinho do Porto, vermutes e até charutos, e ampliar a percepção de valor.
Embora reconheça o papel histórico das grandes marcas na abertura de mercado, Raquel reforça que o futuro da cachaça no exterior passa pela inclusão de pequenos e médios produtores. São eles que carregam diversidade, identidade regional e inovação — atributos cada vez mais valorizados no foodservice global.
Iniciativas como o projeto setorial “Cachaça: Taste the New, Taste Brasil”, da ApexBrasil, vão nessa direção ao apoiar a promoção internacional da bebida. Ainda assim, o desafio permanece grande.
Mais do que vender um destilado, a disputa global da cachaça envolve contar histórias, comunicar cultura e reposicionar a bebida como parte da identidade brasileira contemporânea. Um movimento que interessa não só à indústria, mas a toda a cadeia do foodservice — tema que o Portal Foodbiz acompanha de perto ao analisar tendências, mercados e oportunidades para o Brasil lá fora.
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Conteúdo originalmente publicado pelo Bloomberg Línea







