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“Não enxergo empresa apenas como lucro”, diz Kalinka Campos da Lambe Lambe

Da formação em Letras à expansão nacional da marca de bebidas, a executiva mineira defende um modelo de gestão que combina estratégia, cultura e redistribuição real de oportunidades

Kalinka Campos, 33 anos, não chegou ao mercado de bebidas por um caminho convencional. Formada em Letras pela UFMG, com trajetória na pesquisa e no circuito cultural de Belo Horizonte, ela construiu sua liderança antes mesmo de ocupar formalmente um cargo estratégico.

Criada no interior de Minas Gerais por uma mãe solo, aprendeu cedo que responsabilidade não é opcional. Hoje, como sócia e diretora de Comunicação e Estratégia da Lambe Lambe, marca que cresceu de um experimento local para uma operação com presença nacional, ela sustenta uma visão de empresa que vai além da produção e do faturamento.

“Não enxergo empresa apenas como operação e lucro. Enxergo como construção de ecossistemas sustentáveis, como espaço de produção simbólica e de redistribuição de oportunidades. Essa perspectiva não é retórica. É estratégia.”

Liderança aprendida antes do cargo

Ao ser questionada se mulheres lideram de forma diferente, Kalinka responde sem hesitação: “Sim, eu acredito muito nisso. Não porque exista uma essência feminina universal, mas porque a socialização das mulheres nos ensina desde cedo a negociar, cuidar, mediar e dar conta de tudo.”

Ela aponta uma dimensão estrutural frequentemente ignorada no debate corporativo: mulheres são maioria entre as pessoas com ensino superior no Brasil, mas seguem sub-representadas em cargos estratégicos. A diferença, portanto, não está na capacidade técnica, mas nas barreiras de acesso. “Mulheres aprendem a liderar muito antes de ocupar cargos de liderança. Lideram nos bastidores, muitas vezes sem reconhecimento formal, mas com enorme responsabilidade prática.”

Para ela, liderar sendo mulher implica lidar com uma cobrança antecipada por qualquer espaço que se queira ocupar. É preciso se capacitar mais, provar mais, sustentar mais.

Sua própria trajetória reforça essa leitura. A formação em licenciatura, o trabalho com acessibilidade e educação infantil e a atuação no setor cultural moldaram uma liderança atravessada por escuta, construção coletiva e senso de impacto social.

Marca como construção simbólica

Dentro da Lambe Lambe, Kalinka percorreu todas as camadas da operação antes de assumir a direção estratégica. Essa construção “de dentro para fora” consolidou um estilo de gestão pouco comum em negócios que crescem rapidamente: crescimento com coerência.

Sob sua liderança na área de comunicação e branding, a marca deixou de ser apenas um produto e passou a operar como narrativa cultural conectada à rua, ao território urbano, à produção artística independente e ao comportamento contemporâneo.

Para ela, branding não é estética isolada. É posicionamento estrutural. Essa abordagem foi determinante para sustentar a expansão nacional da marca sem diluir identidade, um desafio recorrente em negócios de crescimento acelerado.

O que ainda precisa mudar

Ao analisar o ambiente empresarial brasileiro, Kalinka é direta: “Não é possível falar em ampliação da presença feminina sem enfrentar três dimensões centrais: acesso a capital, redes de poder e divisão do trabalho de cuidado.”

Ela destaca que mulheres empreendedoras enfrentam maior dificuldade de acessar crédito e investimento, e que empresas lideradas por mulheres recebem proporcionalmente menos aportes. Mas seu argumento não se apoia em discurso idealista. “Não falo isso amparada apenas em representatividade. Falo a partir de dados. Pesquisas mostram que países e empresas que ampliam diversidade nas lideranças apresentam melhores indicadores de inovação e performance.”

Para ela, ampliar a presença feminina em cargos estratégicos é uma decisão econômica inteligente, não apenas uma pauta social. E reforça um ponto muitas vezes negligenciado: qualquer debate sério sobre liderança feminina precisa considerar raça e condição socioeconômica. Sem isso, a análise é incompleta. “Trata-se de redistribuição real de oportunidades e de construção de um modelo estrutural mais equilibrado.”

Crescer sem perder estrutura

A Lambe Lambe vive hoje um momento de consolidação nacional. O desafio, segundo Kalinka, não é apenas crescer: é crescer mantendo controle simbólico e estrutural. Em um mercado ainda majoritariamente liderado por homens, especialmente no setor de bebidas, sua presença no comando estratégico representa uma nova geração de executivas que combinam repertório cultural, visão de longo prazo e leitura social sofisticada.

Sua liderança não opera na lógica da aceleração desmedida, mas na lógica da consistência. “Expansão só faz sentido se cada novo passo carregar o mesmo rigor estético, produtivo e simbólico que construiu a marca até aqui.”

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