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Nude capta R$ 3,5 milhões com Yunus e Belat em sua primeira operação de dívida

A foodtech Nude, especializada em leite de aveia, acaba de realizar sua primeira captação via dívida. A empresa levantou R$ 3,5 milhões junto à Yunus Negócios Sociais, organização fundada pelo Nobel da Paz Muhammad Yunus, e à Belat Brasil, plataforma de crédito voltada a negócios de impacto.

Os recursos serão destinados a capital de giro, essencial para sustentar o ritmo de crescimento da companhia. Em 2025, a Nude registrou alta de 35% no faturamento. Como grande parte de seus clientes são redes de supermercados — com prazos de pagamento que podem chegar a 90 dias —, a necessidade de caixa é um ponto crítico da operação.

“Pela primeira vez acessamos uma linha de crédito incentivada como alternativa ao funding via equity, que era o caminho usado até agora”, afirma Alexander Appel, cofundador e CFO da Nude.

Em 2022, a startup levantou R$ 25 milhões em uma rodada Série A liderada pela Vox Capital, com participação do fundo Lever VC, da então Ecoa Capital (hoje Bold.t), da mexicana Angel Ventures e do fundo da Endeavor.

Do total captado agora, R$ 2 milhões vieram da Yunus, com custo de 2% acima do CDI, prazo de cinco anos e carência de 12 meses. Já os R$ 1,5 milhão da Belat têm custo atrelado ao IPCA. A operação marca uma nova fase na estrutura financeira da empresa.

Criada há cinco anos, a Nude disputa espaço nas gôndolas de alimentos plant-based com seus leites feitos de aveia orgânica, inspirada na trajetória da sueca Oatly. Hoje, a marca se posiciona como líder em bebidas de aveia no Brasil e segunda maior do mercado de bebidas vegetais como um todo.

“Nos primeiros anos, o foco era provar o produto e sobreviver. Agora, o objetivo é ganhar eficiência operacional e construir um negócio sustentável no longo prazo”, diz Appel. A empresa não divulga números oficiais, mas estimativas de mercado apontam faturamento próximo de R$ 100 milhões em 2025, com o break even cada vez mais próximo.

Para a Yunus, a decisão de investimento passa tanto pelo desempenho financeiro quanto pela tese de impacto. “A Nude é o maior negócio do nosso portfólio em faturamento hoje. O avanço rumo ao ebitda positivo também pesou na decisão”, afirma Francisco Vicente, diretor de investimentos da gestora.

Segundo dados da GFI Brasil, o mercado de bebidas vegetais movimentou R$ 748 milhões no varejo em 2024, com crescimento de 10% sobre o ano anterior. Ainda assim, a categoria segue pequena no Brasil: representa cerca de 2% do consumo total de leite, contra 20% nos Estados Unidos.

Além do desafio de escala, a Nude enfrenta entraves tributários. Bebidas vegetais não contam com os mesmos benefícios fiscais do leite de origem animal, o que impacta diretamente o preço final. Hoje, cerca de 30% do valor do produto corresponde a impostos. Em São Paulo, por exemplo, o ICMS sobre a categoria subiu de 7% para 18% em 2024.

A empresa participa de articulações do setor para buscar isonomia tributária, inclusive no debate sobre a reforma do consumo. O PLP 108/2025 previa redução de 60% na alíquota do IBS para bebidas vegetais, mas o trecho foi vetado e ainda aguarda nova análise do Congresso.

No radar dos investidores de impacto, a Nude se destaca também pelo viés ambiental. A startup divulga a pegada de carbono de seus produtos — seu leite de aveia tradicional emite 0,54 kg de CO₂ por litro ao longo de toda a cadeia.

“A intencionalidade de impacto é central. São empreendedores com uma agenda climática clara, o que dá segurança de que o negócio não vai se desviar da missão”, resume Vicente.

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