FoodBiz

Mercado de trabalho dos EUA desacelera e FOMC avalia corte de juros por Roberto Simioni

canva

A queda na abertura de postos de trabalho nos Estados Unidos para 7,181 mm em julho, conforme divulgado pelo relatório JOLTS, representa um sinal relevante de desaceleração no mercado de trabalho norte-americano.

O resultado (abaixo das expectativas) e o número de junho também foi revisado para baixo, de 7,437 mm para 7,357 mm, pode ser interpretada à luz da teoria keynesiana como um reflexo da diminuição da confiança dos empregadores na continuidade do crescimento econômico, à partir da incerteza com que as questões tarifárias ocorreram e foram tratadas pelo depto de copmércio, bem como um indicativo de expectativa de retração na demanda agregada.

Analisando sob a ótica da teoria monetária moderna, especialmente considerando o modelo de Taylor, o Federal Reserve acompanha de perto indicadores como o JOLTS para ajustar sua política de juros. Um mercado de trabalho menos aquecido pode abrir espaço para flexibilizações na política monetária, com o objetivo de estimular a atividade econômica.

A diminuição na criação de vagas também pode estar relacionada a fatores estruturais, como mudanças tecnológicas, restrições à imigração e ajustes nos custos operacionais das empresas. Setores como saúde, assistência social e recreação foram os mais afetados, o que pode indicar uma reconfiguração na demanda por mão de obra. A estabilidade no número de contratações, somando 5,3 mm, aliada aos 3,2 mm de pedidos de demissão e 1,8 mm de dispensas, sugere menor rotatividade e maior cautela dos trabalhadores diante de um cenário econômico mais incerto.

No contexto global, essa desaceleração pode impactar economias emergentes como o Brasil, tanto pela via cambial, com possível desvalorização do dólar em caso de cortes de juros, quanto pela redução na demanda por commodities, afetando as exportações brasileiras. Em suma, os dados do JOLTS de julho reforçam a percepção de que o mercado de trabalho dos EUA está perdendo fôlego, o que pode ter implicações relevantes para a condução da política monetária e para o desempenho da economia global.

O relatório Payroll divulgado nesta semana indicou uma desaceleração significativa na geração de novas vagas nos Estados Unidos. Os dados revisados de junho e julho mostraram uma perda líquida de 21 mil empregos, incluindo uma queda inédita de 13 mil postos em junho. De outro lado, a taxa de desemprego subiu marginalmente de 4,2% para 4,3%. Ainda assim, os números reforçam a expectativa dos agentes de mercado de que o Federal Reserve possa realizar um corte de juros na reunião de política monetária marcada para o dia 17.

Analisando os dados com isenção e sem viés de expectativa, é importante considerar que esse enfraquecimento do mercado de trabalho reflita uma combinação de fatores estruturais e conjunturais. A política fiscal do governo Trump, marcada por cortes agressivos no setor público, contribuiu diretamente para a deterioração dos indicadores. Somente em agosto, o setor público perdeu 16 mil empregos (dos quais 15 mil, são associados ações de E.Musk, à frente do programa do governo federal DOGE. No acumulado do ano, já são 97 mil postos eliminados por meio de demissões, congelamentos de contratação e programas de desligamento voluntário

Essa redução da força de trabalho federal impacta diretamente os números do payroll e afeta a demanda agregada, ao reduzir o consumo das famílias que dependem desses rendimentos. A política migratória também tem influencia negativa no mercado de trabalho, seja na oferta seja no custo da mão de obra. A redução da oferta de mão de obra em setores como agricultura, construção civil e hospitalidade, causada por deportações e restrições na fronteira, levou a uma queda na criação de vagas nesses segmentos. Desde janeiro, a força de trabalho total nos EUA encolheu em 400 mil pessoas, e a taxa de participação caiu para 62,2% em julho, o menor nível desde novembro de 2022. Essa contração da oferta de trabalho pode gerar pressões salariais em setores específicos, mas, no agregado, contribui para a fragilidade do mercado.

Do ponto de vista da teoria econômica, esse movimento pode ser interpretado pela curva de Phillips, que sugere uma relação inversa entre desemprego e inflação. Com o aumento do desemprego e a desaceleração da atividade, espera-se uma redução nas pressões inflacionárias, o que abre espaço para uma política monetária mais acomodatícia.

O FED, em seu duplo mandato de prover estabilidade de preços e pleno emprego, pode agir com um corte de juros de 0,25 ponto percentual.
Se considerarmos o impacto das tarifas comerciais, decorrentes das medidas protecionistas que incluem taxas de importação entre 10% e 20% para países sem acordos bilaterais, tem pressionado as margens principalmente do setor industrial. Mesmo com a possibilidade de repasse desses custos aos consumidores, que tende a pressionar o CPI, provocar perda de renda, desaceleração do consumo, achatamento dos lucros empresariais e redução da geração de empregos, ainda não levou os empresários a intensificaram as demissões. A manufatura perdeu, em média, 12 mil empregos por mês nos últimos 3 meses, e a incerteza gerada pelas disputas comerciais tem levado empresas a adiar investimentos e contratações. O relatório de agosto não apenas confirma a desaceleração da economia americana, como também evidencia os efeitos das políticas públicas sobre o mercado de trabalho. A retração nas contratações e a queda na participação da força de trabalho apontam para um cenário de menor dinamismo, que exige respostas coordenadas da política monetária e fiscal.

Entretanto, como o aumento do desemprego ainda não foi abrupto, permanece em aberto a possibilidade de que o corte de juros pelo Fed não ocorra nesta reunião. Os efeitos de uma política econômica marcada por austeridade, protecionismo e restrição migratória tendem a cobrar seu preço em breve. O desafio será equilibrar os estímulos com a necessidade de preservar a credibilidade institucional e a estabilidade macroeconômica.
Então, porque não acreditamos em uma redução de juros no momento ?

A análise conjunta dos indicadores do relatório JOLTS que o número de vagas abertas no setor não agrícola e do Payroll mostra que a taxa de desemprego, combinados, oferece uma sinalização da dinâmica do mercado de trabalho nos Estados Unidos. Quando observados em paralelo, esses dados permitem avaliar não apenas o nível de atividade econômica, mas também a eficiência com que o mercado está alocando seus recursos humanos.

Do ponto de vista da teoria econômica, essa relação tradicionalmente é representada pela Curva de Beveridge, que descreve o comportamento inverso entre desemprego e vagas abertas. Em um mercado saudável e eficiente, espera-se que um aumento nas vagas venha acompanhado de uma queda na taxa de desemprego, indicando que os trabalhadores estão sendo absorvidos rapidamente pelas empresas. No entanto, quando ambos os indicadores sobem simultaneamente, ou seja, há muitas vagas abertas e o desemprego também está elevado, isso sugere um desalinhamento estrutural: os trabalhadores disponíveis não possuem as qualificações, localização ou condições necessárias para ocupar as vagas existentes. Esse tipo de fricção pode ser causado por diversos fatores, de mudanças tecnológicas que exigem novas habilidades, à barreiras geográficas e mobilidade da força de trabalho, ou mesmo políticas migratórias restritivas que reduzem a oferta de mão de obra em setores específicos. Em momentos como esse, o mercado de trabalho se torna menos eficiente, e a política econômica precisa atuar para corrigir os desequilíbrios, seja por meio de capacitação profissional, incentivos à mobilidade ou ajustes na política monetária.

A relação entre os relatórios do JOLTS e o Payroll, também dialoga com a Curva de Phillips, que sugere uma correlação entre desemprego e inflação. Em um cenário de baixa taxa de desemprego e alta demanda por trabalho, os salários tendem a subir, pressionando os preços. Por outro lado, quando o desemprego aumenta e as vagas diminuem, há menor pressão inflacionária, o que pode abrir espaço para políticas monetárias mais acomodatícias, como cortes na taxa de juros.
Nos últimos 3 anos, essa relação tem revelado transformações importantes na trajetória da economia americana. Em 2022, o país vivia um cenário de forte recuperação pós-pandemia, com o número de vagas abertas atingindo um pico histórico de mais de 12 milhões. A taxa de desemprego permanecia baixa, refletindo um mercado aquecido e uma absorção rápida da mão de obra disponível. Esse contexto indicava uma economia em expansão, com empresas contratando agressivamente para atender ao crescimento da demanda.

A partir de meados de 2023, esse quadro começou a se alterar. O número de vagas abertas passou a cair gradualmente, chegando a cerca de 7,4 milhões em meados de 2025.
Ao mesmo tempo, a taxa de desemprego começou a subir, alcançando 4,3% em agosto, o nível do início de 2022. Essa combinação de menos vagas e mais desempregados sugere uma transição do ciclo econômico, marcada pela desaceleração da atividade e perda de dinamismo no mercado de trabalho, movimentos esperados à partir das ações da Adm Trump.

A persistência de vagas não preenchidas, mesmo com o aumento do desemprego, levanta preocupações sobre a eficiência do mercado na alocação de recursos humanos. A queda na taxa de participação da força de trabalho, que atingiu 62,2% em julho, reforça a ideia de que há menos pessoas disponíveis para trabalhar, o que limita a capacidade de resposta do mercado. Esse desalinhamento estrutural exigiria respostas coordenadas da política econômica, com foco em requalificação profissional, flexibilização regulatória e estímulos à mobilidade.
Do ponto de vista macroeconômico, esse cenário tem implicações diretas sobre a política monetária. Com a inflação em trajetória de moderação e o mercado de trabalho enfraquecido, cresce a expectativa de um corte de juros pelo Federal Reserve. No entanto, o banco central deverá agir com cautela, considerando os riscos de reacender pressões inflacionárias em setores ainda aquecidos, cujos impactos das tarifas ainda não foram absorvidos.

Portanto, acompanhar a evolução de ambos indicadores em conjunto é essencial para entender não apenas o estado atual do mercado de trabalho, mas também os desafios estruturais que podem limitar sua recuperação. Em tempos de transição econômica, como os que vivemos, essa análise se torna ainda mais relevante para orientar decisões de política pública, estratégias empresariais e projeções de política monetária.
Ainda que o mercado precifique com elevada probabilidade um corte de juros na próxima reunião do Federal Reserve, há fundamentos consistentes para sustentar uma decisão de manutenção da taxa atual. A inflação, em trajetória de moderação, permanece acima da meta de 2%, e os efeitos das tarifas comerciais continuam a pressionar os custos de produção, com potencial repasse aos preços ao consumidor.

O mercado de trabalho, apesar da desaceleração nas contratações, ainda demonstra resiliência, com setores como saúde e hospitalidade mantendo ritmo de expansão e sem aumento expressivo nas demissões.
O crescimento do PIB nominal e a estabilidade das condições financeiras indicam que a economia ainda possui fôlego, o que reduz a urgência de estímulos adicionais.
Nesse contexto, uma postura mais cautelosa por parte do Fed pode preservar a credibilidade da política monetária e evitar movimentos prematuros que comprometam o controle inflacionário. Assim, o cenário atual exige não apenas sensibilidade aos dados conjunturais, mas também prudência estratégica diante das incertezas estruturais que ainda permeiam a economia americana

Do ponto de vista macroeconômico, esse cenário tem implicações diretas sobre a política monetária. Com a inflação em trajetória de moderação e o mercado de trabalho enfraquecido, cresce a expectativa de um corte de juros pelo Federal Reserve. No entanto, o banco central deverá agir com cautela, considerando os riscos de reacender pressões inflacionárias.




Fonte: Assessoria

Compartilhar