O poder de compra dos brasileiros em relação aos alimentos apresentou recuperação ao longo do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, impulsionado pelo aumento real do salário mínimo, pela melhora no mercado de trabalho e pela desaceleração da inflação. Ainda assim, os níveis permanecem inferiores aos registrados antes da pandemia — um dado relevante em ano eleitoral e que impacta diretamente o foodservice.
Levantamento do economista Bruno Imaizumi, da consultoria 4intelligence, mostra que o salário mínimo de R$ 1.621, vigente desde janeiro de 2026, permite a compra de 1,9 cesta básica em São Paulo, considerando o valor médio de R$ 854,37 apurado pelo Dieese. Trata-se do melhor resultado desde o início do atual governo, mas ainda cerca de 8% abaixo da média observada entre 2010 e 2019, quando o poder de compra girava em torno de 2,07 cestas.
No pico da série histórica, em março de 2012, o mínimo equivalia a 2,28 cestas básicas. À época, o salário era de R$ 622 e o conjunto de alimentos custava, em média, R$ 273,25 na capital paulista.
A mesma tendência aparece quando a análise considera o rendimento médio do trabalho no país. Em dezembro de 2025, a renda média nominal de R$ 3.613 possibilitava a compra de 4,28 cestas básicas — também o maior nível desde o início do atual mandato, mas aproximadamente 11% inferior à média do pré-pandemia (4,82 cestas).
Para o setor de alimentação fora do lar, esses números ajudam a entender o comportamento do consumidor. Mesmo com sinais de recuperação, o orçamento das famílias segue pressionado, o que influencia escolhas, frequência de consumo e sensibilidade a preço.
Inflação mais branda, mas percepção ainda sensível
Os alimentos consumidos no domicílio registraram inflação acumulada de 1,43% em 2025, segundo o IPCA. Houve desaceleração frente aos 8,23% observados em 2024, indicando perda de ritmo nos reajustes. Ainda assim, a percepção de preços elevados persiste, reflexo do choque inflacionário do período pós-pandemia e da valorização do dólar em anos anteriores.
Segundo Imaizumi, mesmo com a melhora recente, não há expectativa de retorno aos patamares pré-pandemia ainda em 2026. A projeção para dezembro é de que o salário mínimo compre 1,84 cesta básica e que a renda média alcance o equivalente a 4,4 cestas — ambos abaixo das médias históricas da década anterior à crise sanitária.
Variável econômica com peso político
O preço dos alimentos também ganha relevância no debate eleitoral. Em 2022, às vésperas das últimas eleições presidenciais, o poder de compra do salário mínimo chegou ao equivalente a 1,51 cesta básica, após ter alcançado 2,14 cestas em novembro de 2019. A renda média caiu de 4,9 para 3,3 cestas no mesmo intervalo.
Para analistas, a percepção sobre o custo da comida é um dos fatores mais sensíveis para o eleitorado. Caso a melhora do poder de compra se torne mais evidente até outubro, pode influenciar o ambiente político e econômico.
O que isso sinaliza para o foodservice?
Para operadores e fornecedores do setor, o cenário exige atenção estratégica. A recomposição de renda tende a estimular o consumo, mas o ritmo ainda gradual indica que o cliente permanece atento a preço, promoções e custo-benefício.
Em um ambiente de recuperação parcial, propostas de valor claras, cardápios equilibrados e gestão eficiente de custos seguem determinantes para capturar a retomada.
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Fonte: Folha







