O agronegócio brasileiro segue como um dos pilares da nossa economia. Em 2025, o setor avançou perto de 12% em relação ao ano anterior e ajudou a sustentar o desempenho do Produto Interno Bruto (PIB). O agronegócio também responde por parcela significativa dos empregos do Brasil.
Esse protagonismo, porém, não garante ao país uma posição de liderança no futuro da alimentação. O potencial é imenso, mas precisamos capturar mais valor nas novas camadas do sistema alimentar, já que o que está em curso agora não é uma evolução gradual, mas uma reconfiguração de toda a cadeia global.
O estudo “Future of Food 2.0”, divulgado recentemente pela PwC, aponta nove frentes de alto crescimento: 1) saúde e nutrição; 2) conveniência; 3) experiência do consumidor; 4) processamento avançado de alimentos; 5) ingredientes e proteínas alternativas; 6) embalagens sustentáveis; 7) insumos agrícolas de próxima geração; 8) sistemas de cultivo conectados; e 9) infraestrutura agrícola.
Juntas, elas devem movimentar US$ 3,1 trilhões na próxima década. E não é o volume financeiro projetado o que mais chama atenção, mas a velocidade, pois essas novas camadas do sistema alimentar tendem a crescer em ritmo superior ao do setor como um todo.
O que percebemos, aqui, é que o valor deixará de estar concentrado exclusivamente na produção primária, sendo distribuído ao longo de toda a cadeia, especialmente nos pontos mais próximos do consumidor.
Para quem atua em foodservice, esse deslocamento é particularmente sensível. O consumidor atual já não separa alimentação de saúde, conveniência ou experiência. São elementos que passam a ser percebidos como parte de uma mesma entrega. Produtos com melhor perfil nutricional deixaram de ocupar nichos específicos e começam a se consolidar como algo básico. Ao mesmo tempo, a rotina acelerada requer que se una praticidade e qualidade. Um prato congelado pobre nutritivamente – a, além de tudo, com sabor questionável – não tem mais espaço.
Ainda, há um fator adicional que pressiona o sistema: as mudanças climáticas. Seus efeitos já interferem na produtividade e na disponibilidade de determinadas culturas, criando um ambiente mais instável e exigindo respostas coordenadas.
O agronegócio está, sim, no centro dessa transformação, mas não deve ficar isolado. O futuro do setor impõe que haja laços mais estreitos entre campo, indústria, tecnologia e canais de distribuição.
Capturar valor nesse novo contexto demanda escolhas estratégicas bem-estruturadas, o que passa por entender tendências de longo prazo, firmar parcerias que ampliem capacidades e assumir posições melhor definidas na cadeia.
Para o foodservice, é necessário ir além da operação e se enxergar como parte ativa desse ecossistema em transformação. Para ocupar espaço relevantes, é fundamental integrar eficiência operacional com leitura de mercado.
O Brasil tem escala, diversidade produtiva e muito conhecimento, mas para transformar todo esse potencial em protagonismo é mandatório que avancemos além da produção, participando de forma mais intensa das novas dinâmicas que estão redesenhando o sistema global de alimentos.
*Enrico Milani é CEO da Vapza Alimentos







