Enquanto muitas marcas disputam a atenção do consumidor com selos, rótulos e discursos ambientais cada vez mais visíveis, a Ferrero segue um caminho diferente. Para a multinacional italiana dona de marcas como Nutella, Ferrero Rocher, Kinder Ovo e Tic Tac, sustentabilidade é parte estrutural do negócio — mas não necessariamente um tema de comunicação direta com o público.
Essa visão foi detalhada por Mario Abreu, vice-presidente global de sustentabilidade da companhia, em entrevista ao Estadão. Brasileiro, baseado em Luxemburgo e no cargo desde 2020, o executivo explica que a empresa prefere evitar mensagens que possam gerar confusão ou até interpretações de greenwashing. Por isso, a comunicação com o consumidor segue centrada, principalmente, na qualidade dos produtos.
Segundo Abreu, falar de sustentabilidade hoje envolve um nível de complexidade alto. “São muitos critérios, muitas informações técnicas e nem sempre o que parece melhor do ponto de vista ambiental realmente é”, afirma. Um exemplo citado por ele é o de embalagens mais recicláveis que, dependendo do material ou do processo, podem aumentar a pegada de carbono.
Apesar da postura discreta na comunicação, as metas da Ferrero são ambiciosas. A empresa tem compromissos climáticos aprovados pela Science Based Targets Initiative (SBTi), incluindo a redução absoluta de 50% das emissões até 2030, com base em 2018. Até 2023, cerca de 22% desse caminho já havia sido percorrido. No escopo 3 — que envolve fornecedores e costuma ser o maior desafio do setor — a meta é reduzir em 43% a pegada de carbono por tonelada de produto.
Boa parte desse esforço passa pelo redesenho de embalagens. Um dos exemplos é a tradicional caixa transparente do Ferrero Rocher, que deixou de ser feita em poliestireno (PS) e passou a usar polipropileno (PP), material com maior viabilidade de reciclagem. O novo design também reduziu a espessura do plástico, diminuindo peso e emissões, sem comprometer a integridade do produto.
Esse equilíbrio, segundo Abreu, é um dos maiores desafios. Reduzir embalagem não pode significar aumento de desperdício ou perda de qualidade. No balanço ambiental, o impacto de produzir um chocolate é muito maior do que o de produzir sua embalagem. Além disso, mudanças visuais precisam ser cuidadosas para não gerar estranhamento no consumidor, já que a embalagem também funciona como identificação da marca.
Outro ponto central da estratégia da Ferrero é a rastreabilidade da cadeia de fornecimento. Hoje, mais de 90% dos principais ingredientes já são rastreados, com índices próximos de 100% em matérias-primas como cacau, café, óleo de palma e avelãs. A empresa utiliza monitoramento via satélite, em parceria com a Airbus, para evitar desmatamento e medir impactos reais de carbono no solo e nas plantações.
Essa rastreabilidade também é fundamental para lidar com temas sensíveis, como direitos humanos e trabalho infantil, especialmente em cadeias agrícolas complexas, como a do cacau na África. Embora nem sempre haja contratos diretos com pequenos produtores, o mapeamento das comunidades permite desenvolver programas sociais, incentivar a escolarização e apoiar modelos de agrofloresta que aumentam a resiliência dos produtores frente às mudanças climáticas.
.
Fonte: Estadão







