FoodBiz

Da quase falência ao crescimento acelerado: como a Cory faturou R$ 300 milhões

Cory Alimentos/Divulgação

Poucas histórias no setor de alimentos misturam tão bem tradição, erro, reinvenção e inovação quanto a da Cory. A fabricante de guloseimas, criada há quase 60 anos no interior paulista, chegou a ter a falência decretada no fim dos anos 1990. Hoje, projeta fechar 2025 com faturamento próximo de R$ 300 milhões e planos claros de expansão.

No centro dessa virada estão duas gerações da mesma família. Nelson Nascimento, fundador da companhia, divide o dia a dia do negócio com o neto Felipe Nascimento, que abriu mão de uma carreira internacional para aprender diretamente com quem já atravessou — e sobreviveu — a todas as crises possíveis do Brasil.

A decisão veio de forma inesperada. Felipe estava em Singapura, no meio do mestrado, quando recebeu a visita do avô. Entre conversas e viagens pelo Sudeste Asiático, o convite surgiu de maneira direta: voltar ao Brasil e aprender o negócio do zero. Não como herdeiro, mas como aprendiz.

Hoje, a Cory opera duas fábricas — uma em Ribeirão Preto (SP) e outra em Arceburgo (MG) — produz cerca de 25 mil toneladas por ano e emprega aproximadamente 600 pessoas. Um cenário bem diferente daquele vivido há pouco mais de duas décadas.

Criatividade antes de escala

A história da Cory começa antes mesmo da marca existir. Nelson era executivo da Arapuã quando decidiu não acompanhar a mudança da empresa para São Paulo. Abriu uma padaria — curiosamente, sem forno. A solução foi terceirizar a produção, o que acabou levando à fabricação própria de biscoitos e, depois, à compra de uma pequena fábrica de balas em Ribeirão Preto, em 1974. Nascia ali a Cory.

Desde cedo, a empresa se destacou por ideias simples e bem conectadas ao comportamento do consumidor. Um dos exemplos mais conhecidos foi o Ice Kiss com recadinhos impressos, que transformou a bala em algo além do sabor: virou interação, brincadeira e paquera. A marca rapidamente ganhou liderança no segmento de balas refrescantes.

Vieram depois os biscoitos recheados, como o Hipopó, e até ovos de Páscoa com brindes — algo que hoje parece óbvio, mas que na época ainda não era prática comum.

O erro que quase custou tudo

O maior tropeço da Cory veio nos anos 1990, em meio à hiperinflação e ao tabelamento de preços. Nelson decidiu comprar uma rede varejista em dificuldades e, na tentativa de salvá-la, passou a transferir recursos da indústria para o varejo. A estratégia não funcionou.

A empresa entrou em concordata e, por um erro processual, teve a falência decretada. A fábrica ficou fechada por quatro meses, mais de mil funcionários foram impactados e a Cory perdeu espaço nas gôndolas, além de ver marcas clonadas.

A recuperação veio anos depois, já sob a nova lei de recuperação judicial. A empresa foi uma das primeiras do país a adotar o mecanismo e cumpriu o plano ao longo de 15 anos. Hoje, a situação financeira está praticamente regularizada.

Reorganizar, focar e testar rápido

A retomada passou por decisões pragmáticas: reorganização industrial, foco em categorias onde a marca já era forte e leitura regional de consumo. Em algumas regiões do Nordeste, por exemplo, Ice Kiss chega a ter mais de 70% de participação em sabores específicos. Em Minas Gerais, a bala Chita responde por cerca de um quarto do mercado.

A entrada de Felipe na gestão trouxe novos vetores: testes rápidos, aceleração digital e atenção ao consumo saudável. Surgiram daí iniciativas como a Lowy, marca de doces funcionais sem açúcar e sem glúten, além da reativação do Hipopó e até a entrada em categorias inusitadas, como hidratante labial — que virou líder em uma grande rede de drogarias em poucos meses.

China como laboratório de inovação

Um dos movimentos mais estratégicos da nova fase da Cory é a internacionalização via inovação. A empresa estruturou uma joint venture na China para criação e desenvolvimento de novos produtos. A lógica é clara: usar a velocidade e a tecnologia da indústria chinesa como laboratório, algo difícil de replicar no Brasil com os mesmos custos e escala.

Parte dos lançamentos de 2025 já veio desse pipeline asiático, especialmente dentro da marca Ice Kiss, que passará por rebranding e ganhará versões sem açúcar.

Crescer com os pés no chão

Os planos da Cory são de curto prazo, por necessidade. A meta para 2026 é crescer entre 15% e 20%, com expansão geográfica (começando pelo Sul), fortalecimento da distribuição e novas collabs — algumas envolvendo produtos ainda inexistentes no mercado brasileiro.

A estratégia também passa por usar marcas como Lowy para abrir portas em redes onde a empresa antes não tinha acesso, criando efeito cascata para o restante do portfólio.

Conteúdo originalmente publicado pela Exame

Compartilhar