A transição para soluções menos dependentes do petróleo também está ganhando força no universo das cores. Um novo exemplo vem da Dinamarca: a startup Octarine Bio acaba de captar €5 milhões para acelerar a chegada ao mercado de pigmentos de base biológica, desenvolvidos sem qualquer uso de insumos fósseis.
Com sede em Copenhague, a empresa elevou sua rodada Série A para €12,8 milhões (cerca de US$ 15 milhões). O investimento reuniu nomes como The Footprint Firm, Edaphon, Unconventional Ventures, DSM-Firmenich Ventures e Oskare Capital, além de investidores-anjo experientes, como Per Falholt, cofundador da 21st.Bio, e Steen Riisgaard, ex-CEO da Novonesis.
Os recursos serão usados para validação em escala industrial e para a comercialização da PurePalette, plataforma proprietária de pigmentos criada a partir de fermentação de precisão. A tecnologia permite aplicações em diferentes setores, como alimentos e bebidas, têxteis, cosméticos, embalagens e até moda.
Segundo a cofundadora e CEO da Octarine Bio, Nethaji Gallage, a nova fase marca um ponto de virada para a empresa. “Com esse capital, conseguimos escalar a produção das três primeiras cores da PurePalette, avançar nas parcerias comerciais já firmadas e ampliar o desenvolvimento de pigmentos sustentáveis para novos mercados”, afirmou. Em entrevistas recentes, a executiva confirmou que as conversas com fabricantes já estão em andamento e que os primeiros produtos devem chegar ao mercado ainda este ano.
Pigmentos bio-based como alternativa aos corantes sintéticos
Fundada em 2018 por Gallage e pelo diretor científico Nick Milne, a Octarine Bio aposta na fermentação de precisão para desafiar o domínio dos corantes sintéticos derivados do petróleo. A tecnologia envolve a modificação genética de microrganismos, que passam a produzir moléculas específicas durante o processo fermentativo.
De acordo com a empresa, a PurePalette é a única plataforma de pigmentos totalmente biológica capaz de entregar todo o espectro de cores a partir de um único processo produtivo. Cada cepa microbiana proprietária é programada para gerar uma cor específica, utilizando apenas insumos renováveis. Após a fermentação, os pigmentos passam por etapas de purificação e formulação, adaptadas à aplicação final.
Entre as vantagens estão a intensidade e a estabilidade das cores, combinadas a um impacto ambiental significativamente menor. Em 2024, o foco da Octarine Bio está na ampliação da produção das cores PurePurple, PureGreen e PureBlue. Até agora, a empresa já produziu 100 quilos de seu primeiro pigmento e pretende alcançar o mesmo volume com as outras duas cores nos próximos meses.
Além da sustentabilidade, o modelo produtivo também busca competitividade. Segundo Gallage, os rendimentos por litro são elevados e a eficiência do processo permite atingir paridade de custo com corantes sintéticos, mesmo em estágios iniciais de escala.
Pressão regulatória e demanda do consumidor aceleram o movimento
O avanço de pigmentos de base biológica acontece em um contexto de crescente pressão ambiental e regulatória. Na indústria têxtil, por exemplo, a maioria dos corantes ainda é derivada de combustíveis fósseis e exige grandes volumes de água, além de gerar resíduos tóxicos que frequentemente acabam em rios e oceanos. Estima-se que o tingimento de tecidos seja responsável por 17% a 20% da poluição hídrica global.
No setor de alimentos e bebidas, o debate também ganhou força. Nos Estados Unidos, movimentos como o Make America Healthy Again têm impulsionado críticas ao uso de corantes artificiais. Em 2025, a FDA anunciou a proibição do Red Dye No. 3, um corante derivado do petróleo associado ao desenvolvimento de câncer em estudos com animais. Desde então, empresas como Nestlé, Mars, Kellogg’s e General Mills passaram a revisar suas formulações e eliminar corantes artificiais de diversos produtos.
Para Gallage, a combinação entre consumidores mais atentos e regulações mais rígidas cria um ambiente favorável à adoção de soluções bio-based. “Os corantes sintéticos têm impactos relevantes tanto para o meio ambiente quanto para a saúde. A demanda por alternativas mais responsáveis está crescendo rapidamente”, destacou.
Interesse de investidores e efeito cascata no mercado
O movimento não se limita à Octarine Bio. Em novembro, a Chromologics levantou US$ 8 milhões para lançar um corante vermelho alimentar obtido por fermentação microbiana nos EUA e na Europa. Já a Michroma firmou parceria com a sul-coreana CJ CheilJedang para escalar pigmentos bio-based voltados a alimentos e cosméticos.
Comentando o aporte na Octarine Bio, Anna Zimmermann, associate sênior da Edaphon, reforçou o potencial de transformação da tecnologia. “A PurePalette pode reduzir de forma significativa o impacto ambiental do tingimento têxtil, uma das etapas mais poluentes da cadeia da moda. Por se integrar aos processos já existentes, esses pigmentos têm grande potencial de adoção em larga escala”, afirmou.
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Fonte: Vegan Business







