A M. Dias Branco, dona de marcas como Piraquê, Vitarella e Adria, já discute no mais alto nível da companhia os possíveis impactos da popularização dos medicamentos à base de GLP-1 — como Ozempic, Wegovy e Mounjaro — sobre o consumo de alimentos no Brasil.
Em um cenário em que os alimentos passaram a ser analisados cada vez mais por seus macronutrientes, a empresa, tradicionalmente associada a categorias ricas em carboidratos, observa com atenção a mudança de comportamento impulsionada pelas chamadas “canetas emagrecedoras”. Esses medicamentos aumentam a sensação de saciedade e reduzem o apetite por alimentos mais calóricos, ao mesmo tempo em que estimulam a busca por produtos com maior teor de proteína, já que a perda de peso pode vir acompanhada de redução de massa magra.
Durante teleconferência de resultados realizada nesta sexta-feira (27), Gustavo Lopes Theodozio, Vice-Presidente de Investimentos e Controladoria da M. Dias Branco, afirmou que o tema já entrou na pauta do conselho de administração. Segundo ele, embora o uso desses medicamentos ainda atinja uma parcela limitada da população brasileira — e haja dúvidas sobre a duração média dos tratamentos — a companhia monitora de perto a tendência.
Até o momento, a avaliação interna é que não houve impacto relevante nas vendas ao longo de 2025 nem neste início de 2026. Ainda assim, a empresa tem reforçado sua estratégia de adaptação ao novo perfil de consumidor.
Nos últimos anos, a M. Dias Branco ampliou o portfólio com produtos de menor teor de açúcar e maior concentração de proteína. Em 2021, adquiriu a Fit Food, focada em snacks com grãos integrais e proteínas vegetais. No ano seguinte, incorporou a Jasmine, marca paranaense com atuação em granolas, cereais, pães e itens sem glúten.
A área de pesquisa e desenvolvimento também vem direcionando esforços para atender a esse consumidor mais atento à saúde. A cada dois meses, a companhia realiza um comitê de inovação para discutir lançamentos e ajustes de portfólio. A próxima reunião, prevista para março, será dedicada exclusivamente a produtos alinhados a essa nova demanda.
Resultados de 2025
No quarto trimestre de 2025, a M. Dias Branco registrou lucro líquido de R$ 157,9 milhões, queda de 10,5% em relação ao mesmo período de 2024. No acumulado do ano, o lucro somou R$ 660 milhões, ligeiramente acima dos R$ 646 milhões do exercício anterior.
A receita líquida atingiu R$ 10,4 bilhões em 2025, crescimento de 8% sobre 2024 e recorde histórico para a companhia. A geração operacional de caixa foi um dos destaques do período, com alta de 138%, totalizando R$ 1,4 bilhão no ano.
Em volume, a empresa vendeu 1,81 milhão de toneladas ao longo de 2025, avanço anual de 3%.
Para o foodservice e para a indústria como um todo, o movimento sinaliza que, mesmo sem impacto imediato nas vendas, a transformação no comportamento alimentar já entrou no radar estratégico das grandes companhias — e tende a influenciar lançamentos e posicionamento de portfólio nos próximos anos.







