Após crescer mais de 25% em 2025, fabricante paranaense enfrenta retração nas vendas e aposta em distribuição, novos produtos e expansão no varejo
Depois de encerrar 2025 com crescimento superior a 25%, a Chás Real, fabricante da marca Mate Real, enfrenta um cenário mais desafiador em 2026. A companhia projeta terminar o ano com faturamento próximo de R$ 67 milhões, abaixo dos aproximadamente R$ 75 milhões registrados no ano anterior.
Até o momento, a receita acumulada está na casa dos R$ 45 milhões. No primeiro semestre, a retração ficou entre 4% e 5% e, para o fechamento do ano, a expectativa é de queda entre 5% e 9%, dependendo do desempenho dos últimos meses.
Apesar da revisão das projeções de curto prazo, a empresa mantém seu objetivo de expansão.
“Tínhamos uma projeção de crescimento que acabou frustrada pelo ano eleitoral e pela crise no setor de alimentos. Mas, apesar da retração, a meta não mudou: pretendemos chegar aos R$ 100 milhões de faturamento nos próximos cinco anos”, afirma Henrique Fontana, diretor da Chás Real e representante da quinta geração da família à frente do negócio.
Varejo mais fraco pressiona resultados
Segundo Fontana, o cenário se tornou mais difícil no segundo semestre. Em agosto, as vendas de chás da companhia recuaram cerca de 10%, levando a empresa a intensificar promoções e acompanhar mais de perto os resultados das ações comerciais.
O desempenho contrasta com 2025, quando a Chás Real faturou aproximadamente R$ 75 milhões e avançou mais de 25%. No mesmo período, segundo estimativas da companhia, o segmento de chás em sachê cresceu entre 15% e 16%.
Parte da retração atual já era esperada devido à entrada de grandes clientes no ano anterior. O abastecimento inicial desses pontos de venda gerou volumes maiores, que posteriormente passaram a níveis considerados mais regulares.
Distribuição é um dos principais desafios
Atualmente, a Chás Real processa cerca de 2 milhões de quilos por ano, considerando erva-mate, camomila e outros insumos. A companhia possui aproximadamente 3,5 mil clientes ativos e estima estar presente em mais de 7 mil pontos de venda, considerando também os estabelecimentos atendidos por distribuidores.
A fábrica localizada em Almirante Tamandaré, na Região Metropolitana de Curitiba, possui capacidade para dobrar ou até triplicar a produção sem a necessidade de construção de uma nova unidade.
O principal obstáculo para avançar nacionalmente, portanto, não está na capacidade industrial, mas na logística.
Em uma categoria com volumes menores e margens mais apertadas, o custo do frete pode dificultar o atendimento de supermercados de pequeno e médio porte em regiões mais distantes.
Para enfrentar essa questão, a empresa implantou em 2026 um estoque no Rio de Janeiro, operado por uma companhia de logística. A estratégia poderá ser replicada em São Paulo, Minas Gerais e, posteriormente, no Nordeste.
Grandes redes entram no radar
Outra frente de crescimento é ampliar a presença entre os maiores supermercadistas brasileiros. Em 2025, a empresa passou a atender redes como ABC, em Minas Gerais, e Tenda Atacado, em São Paulo.
A companhia estima que ampliar sua presença entre os cem principais supermercadistas e distribuidores do país poderia adicionar entre R$ 20 milhões e R$ 30 milhões ao faturamento nos próximos anos.
Para crescer sem comprometer a rentabilidade, a Chás Real desenvolve um modelo que cruza fatores como número de lojas, potencial regional de vendas e investimentos comerciais necessários para conquistar cada cliente.
Produtos funcionais e novas categorias
A estratégia de expansão também passa pela renovação das embalagens, fortalecimento dos canais digitais e lançamento de produtos conectados às novas demandas dos consumidores.
Entre as apostas estão sabores associados ao mercado de alimentos e bebidas funcionais. Uma das novidades combina cúrcuma, gengibre e pimenta-preta.
“As pessoas querem chás que tenham funcionalidade e sabor. Se você lança um produto funcional com gosto ruim, a tendência é não dar certo”, afirma Fontana.
A companhia também avalia retornar ao mercado de bebidas engarrafadas e entrar em outras categorias de alimentos, principalmente produtos ligados ao café da manhã. Além de diversificar o portfólio, a estratégia poderia aumentar o volume transportado e ajudar a diluir os custos logísticos.
Por enquanto, aquisições de outras empresas não estão nos planos.
Crescimento com cautela
A estratégia atual também reflete a história da companhia, que atravessou diferentes ciclos desde sua origem ligada à produção de erva-mate no Paraná.
Depois de enfrentar uma crise financeira em gerações anteriores, a família passou por um longo processo de recuperação, com redução de custos e venda de ativos. Essa experiência influencia a postura atual diante da desaceleração do mercado.
Em vez de acelerar a expansão por meio de endividamento, a Chás Real pretende testar produtos, acompanhar a resposta dos consumidores e preservar o caixa.
“A responsabilidade da quinta geração é com toda essa história. Temos de dar um passo de cada vez e só assumir um risco do qual seja possível se levantar”, conclui Fontana.







