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Alemanha avalia taxar ultraprocessados diante do avanço da obesidade

Na Alemanha, o debate sobre como enfrentar o aumento da obesidade ganhou força — e colocou no centro da discussão o papel dos alimentos ultraprocessados. Metade dos adultos no país já está acima do peso, e o impacto econômico e social desse cenário preocupa autoridades e especialistas em saúde pública.

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Um problema coletivo

Em um sistema de saúde baseado em seguro obrigatório, os custos do tratamento de doenças relacionadas ao peso são compartilhados entre todos. Estimativas apontam que esses gastos podem variar de 27 a 90 bilhões de euros por ano, sobrecarregando um sistema já pressionado financeiramente.

Barbara Bitzer, diretora da Sociedade Alemã de Diabetes, alerta que a obesidade “não apenas causa muito sofrimento humano, mas também representa custos extremamente altos para o país”.

Ainda assim, as políticas públicas para enfrentar o problema têm avançado lentamente. Medicamentos populares para perda de peso, como Ozempic e Wegovy, não são cobertos pelo seguro público, e as iniciativas de incentivo a uma alimentação mais saudável são tímidas.

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Livre mercado ou regulação?

O governo do chanceler Friedrich Merz evita medidas mais diretas e aposta na responsabilidade individual dos consumidores. Já partidos como os Verdes e a Esquerda defendem impostos sobre o açúcar e a reformulação da tributação de alimentos, inspirando-se em exemplos como o Reino Unido e o Chile — países que conseguiram reduzir o consumo de ultraprocessados com políticas fiscais e de rotulagem mais rígidas.

Enquanto isso, associações do setor e políticos conservadores argumentam que a concorrência e a mudança de comportamento dos consumidores seriam suficientes para que as empresas ajustassem suas receitas. “Acho que a concorrência regula grande parte disso”, declarou Christina Stumpp, do partido CDU.

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A força da indústria e o papel das empresas

As grandes corporações de alimentos, como Nestlé, Unilever e Danone, afirmam estar reformulando seus produtos e reduzindo o teor de açúcar, especialmente nas linhas voltadas ao público infantil. No entanto, dados mostram que 41% das vendas da Nestlé ainda vêm de produtos classificados como não saudáveis.

Para especialistas, confiar apenas na boa vontade das empresas não é suficiente. Marion Nestle, professora emérita da Universidade de Nova York, lembra que “as empresas alimentícias não são agências de saúde pública, são negócios com acionistas a satisfazer”.

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O que está em jogo

Pesquisas da OCDE indicam que reduzir as calorias de alimentos ultraprocessados em apenas 20% poderia gerar um ganho equivalente a 29 mil empregos em tempo integral por ano na Alemanha, além de reduzir custos médicos e melhorar a produtividade.

Mesmo com o apoio da maioria da população — 79% dos alemães são favoráveis a um imposto sobre o açúcar —, falta vontade política para que o tema avance. Para Bitzer, a questão não é de custo, mas de coragem: “Não custa muito, mas requer decisão política. E isso tem faltado há anos”.


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Fonte: Bloomberg Linea

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