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Proposta nos EUA reacende debate sobre concentração na indústria de carnes

Foto: REUTERS

Uma proposta que começa a ganhar espaço no debate político nos Estados Unidos pode alterar a dinâmica da indústria de carnes no país. Senadores democratas preparam um projeto de lei que pretende limitar a atuação de frigoríficos a apenas um tipo de proteína, medida que, se avançar, teria impacto relevante na organização do setor.

Segundo informações publicadas pelo The Wall Street Journal, o líder da minoria no Senado, Chuck Schumer, pretende apresentar a proposta nos próximos dias. O texto prevê o desmembramento de empresas que hoje operam com múltiplas proteínas, como carne bovina, frango e suína, além de ampliar os poderes do governo para exigir a venda de plantas industriais ou separar unidades de negócio.

A iniciativa surge em um momento de forte pressão sobre os preços da carne bovina nos Estados Unidos. Nos últimos 12 meses, os valores ao consumidor subiram cerca de 24%, alimentando o debate político sobre concentração no setor. Atualmente, quatro grandes empresas respondem por aproximadamente 80% do abate de bovinos no país.

Mesmo com a repercussão do tema, analistas avaliam que as chances de a proposta avançar no Congresso são limitadas. Relatório do Bradesco BBI destaca que, historicamente, iniciativas desse tipo encontram forte resistência política e regulatória.

Além disso, especialistas apontam que a alta dos preços da carne está mais relacionada ao ciclo pecuário do que à estrutura de mercado. O rebanho bovino norte-americano está em níveis historicamente baixos, o que restringe a oferta de animais para abate.

Ciclo pecuário segue pressionando o setor

A recomposição do rebanho ainda está em fase inicial, com produtores retendo fêmeas para reprodução. Esse movimento tende a reduzir ainda mais a oferta no curto prazo, o que indica que os preços elevados devem persistir por pelo menos mais um ano.

Outro ponto que desafia a narrativa de que frigoríficos estariam capturando ganhos extraordinários é a rentabilidade do setor. De acordo com o BBI, a participação das empresas no valor gerado na cadeia da carne bovina nos EUA caiu para cerca de 4% em janeiro, mínima histórica.

Empresas relevantes do setor, como JBS, Tyson Foods e National Beef, registraram prejuízos operacionais nas operações de carne bovina nos primeiros nove meses de 2025.

Nos últimos meses, algumas companhias também anunciaram ajustes de capacidade. A Tyson Foods, por exemplo, decidiu fechar uma planta em Lexington e reduzir operações em Amarillo.

Diversificação entre proteínas ganha importância

Para analistas, a possibilidade de obrigar frigoríficos a separar suas operações por tipo de proteína iria na contramão de uma estratégia que hoje ajuda a equilibrar os resultados das empresas: a diversificação.

Ao atuar em diferentes proteínas, grupos globais conseguem compensar ciclos negativos em uma categoria com desempenho melhor em outra. Esse modelo tem sido fundamental em um momento de margens pressionadas na carne bovina.

Oferta de gado segue como principal fator de preço

Relatório do Goldman Sachs reforça que o aumento dos preços da carne bovina está ligado principalmente ao ciclo pecuário desfavorável. Desde 2021, os frigoríficos perderam cerca de 35 pontos percentuais de participação no lucro total da cadeia.

Além do rebanho em mínimas históricas, o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) projeta queda de cerca de 2% no volume de abates em 2026.

Restrições sanitárias ao comércio de gado com o México também adicionaram pressão à oferta no mercado americano.

Diante desse cenário, o governo dos EUA vem adotando medidas para ampliar a disponibilidade de carne bovina, incluindo flexibilização de regras de importação e acordos comerciais com países produtores.

O que observar a partir desse debate

Mesmo com baixa probabilidade de aprovação, a proposta reforça um movimento recorrente nos Estados Unidos: quando os preços da carne sobem, cresce a pressão política sobre a concentração da indústria.

Para empresas globais de proteína — inclusive brasileiras — o debate é um sinal de que a regulação do setor pode ganhar mais atenção nos próximos anos, especialmente em períodos de inflação alimentar elevada.

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Fonte: Infomoney

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