A discussão sobre a regulamentação dos entregadores por aplicativos voltou ao centro do debate em Brasília — e pode mexer diretamente com os custos do delivery no Brasil.
O presidente da Câmara, Hugo Motta, quer levar o tema para votação já nas próximas semanas, mas o projeto segue travado por divergências importantes entre governo, Congresso e empresas. No meio desse impasse está um ponto sensível para todo o ecossistema de foodservice: o valor mínimo pago por entrega.
Hoje, duas propostas concentram o debate. O governo defende uma remuneração mínima de R$ 10 por corrida de até 4 km, com adicional por distância. Já o relator do projeto trabalha com um valor menor, de R$ 8,50 por entrega — número que já constava em versões anteriores do texto.
Para as empresas de delivery e mobilidade, no entanto, a discussão vai além do valor. O setor argumenta que a combinação de novas regras pode elevar significativamente os custos operacionais, impactando toda a cadeia — de restaurantes a consumidores.
Entre as mudanças defendidas pelo governo estão o fim das entregas agrupadas, maior transparência nos algoritmos, criação de pontos de apoio e inclusão dos entregadores na Previdência, com contribuição majoritariamente das plataformas. A avaliação do Executivo é que essas medidas garantem melhores condições de trabalho sem necessariamente encarecer o serviço.
Já as empresas veem outro cenário. Segundo representantes do setor, dobrar o valor mínimo por entrega, por exemplo, tende a pressionar preços em um ambiente de livre mercado. A lógica é direta: aumento de custo leva a aumento de preço — o que pode reduzir a demanda.
Outro ponto levantado é o possível efeito no volume de corridas. Mesmo que o ganho por entrega aumente, a expectativa das plataformas é de queda na quantidade de pedidos, o que poderia reduzir a renda mensal dos entregadores.
Para o foodservice, o impacto pode ser relevante. Hoje, plataformas de delivery são responsáveis por uma fatia importante das vendas de muitos restaurantes, especialmente em grandes centros urbanos. Qualquer mudança na estrutura de custos pode afetar desde a taxa cobrada dos estabelecimentos até o preço final para o consumidor.
O debate também passa pela definição do papel das empresas: se são intermediadoras de tecnologia ou prestadoras de serviço. Essa classificação tem implicações tributárias e regulatórias importantes — e pode alterar significativamente o modelo de negócio atual.
Nos bastidores, há ainda preocupação política. Em ano eleitoral, o tema ganha ainda mais sensibilidade, já que envolve tanto a renda de milhões de trabalhadores quanto o bolso de cerca de 60 milhões de consumidores que utilizam aplicativos de entrega no país.
O que está em jogo, portanto, vai além da regulamentação do trabalho. Trata-se de um possível redesenho do modelo de delivery no Brasil — com efeitos diretos para restaurantes, plataformas e clientes.
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Fonte: G1







