Durante muito tempo, a marmita foi associada à praticidade sem planejamento — uma solução funcional, mas pouco estratégica dentro do foodservice. Esse cenário começou a mudar quando Camila Miglhorini identificou no formato uma oportunidade de negócio alinhada a novas demandas do consumidor.
Ao sair do mercado corporativo, a fundadora da Mr. Fit decidiu combinar sua experiência com franquias e o interesse pela cozinha para explorar uma lacuna clara: refeições saudáveis, acessíveis e com potencial de escala. A proposta não era apenas vender comida, mas simplificar o acesso à alimentação equilibrada no dia a dia.
O início foi marcado por limitações financeiras e ausência de investidores. Para tirar o projeto do papel, Camila vendeu o próprio carro, investiu em equipamentos usados e estruturou uma operação enxuta, com forte disciplina de custos — um ponto que se tornaria central no modelo de expansão da rede.
Nos primeiros anos, a fundadora esteve diretamente envolvida na operação, acompanhando desde o preparo até a negociação com fornecedores. Esse contato direto ajudou a validar processos, identificar gargalos e construir uma base mais sólida para o crescimento via franquias.
Um dos principais diferenciais estratégicos da marca foi a escolha do cardápio. Em vez de apostar em receitas distantes do hábito do consumidor, a Mr. Fit optou por adaptar pratos já consolidados na cultura alimentar brasileira. Clássicos como estrogonofe, parmegiana e frango grelhado ganharam versões mais leves, mantendo familiaridade e reduzindo a barreira de entrada.
Essa decisão aproximou a marca do público e ajudou a consolidar produtos que seguem entre os mais vendidos, como frangolino, estrogonofe e parmegiana de crepioca.
Com o avanço da rede, o modelo deixou de ser artesanal para se tornar altamente padronizado, apoiado por tecnologia e gestão de dados. A transição também exigiu uma mudança no papel da fundadora, que passou da execução operacional para uma atuação mais estratégica, focada em escala e gestão do negócio.
A pandemia representou um ponto de inflexão. Com o fechamento de unidades físicas — cerca de 40% da base —, a empresa precisou reagir rapidamente. Ao mesmo tempo, a demanda por conveniência dentro de casa impulsionou o crescimento de refeições congeladas.
A resposta foi a criação de uma fábrica própria, hoje responsável pela produção de cerca de 8 mil refeições por dia. Além de atender à nova demanda, a verticalização trouxe ganhos em padronização e controle de qualidade, fatores críticos para redes em expansão.
Outro pilar relevante do modelo é o posicionamento de preço. As refeições finais ficam na faixa de R$ 15 a R$ 25, enquanto o custo para franqueados gira entre R$ 8 e R$ 12 por unidade. A estratégia reforça a proposta de democratizar o acesso à alimentação saudável, sem restringir o consumo a nichos premium.
Esse posicionamento dialoga com mudanças no comportamento do consumidor, como o aumento da busca por refeições com maior teor de proteína, a consolidação de dietas com menor consumo de carboidratos e o crescimento da demanda por opções sem glúten e sem lactose.
Mais do que um caso isolado, a trajetória da Mr. Fit reflete um movimento relevante no foodservice: a evolução de modelos que equilibram conveniência, saudabilidade e identificação cultural. Em vez de propor rupturas, a estratégia passa por adaptar o que já faz parte da rotina do consumidor — com eficiência operacional e potencial de escala.
Para o setor, o aprendizado é claro: há espaço para inovação mesmo em formatos tradicionais, desde que acompanhados de consistência, leitura de demanda e estrutura para crescer.
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Fonte: R7







