O mercado brasileiro de medicamentos GLP-1 começou 2026 mostrando uma mudança importante de dinâmica. Em março, as importações de produtos classificados como hormônios polipeptídicos, indicador usado pelo mercado para acompanhar a entrada dessas canetas no país, chegaram a US$ 447 milhões, mais que o dobro do registrado no mês anterior. O dado reforça o avanço recente da categoria e sugere uma reconfiguração na disputa entre as principais moléculas.
A leitura dos fluxos de importação aponta crescimento expressivo nas compras vindas dos Estados Unidos e da Alemanha, mercados que funcionam como referência para a disponibilidade do Mounjaro, da Eli Lilly, à base de tirzepatida. Como a farmacêutica não detalha publicamente os volumes de produção e distribuição, esse movimento é acompanhado por analistas como um termômetro indireto da expansão do medicamento no Brasil.
Na prática, o que os números indicam é que a oferta de tirzepatida começa a ganhar tração em um segmento que, até pouco tempo atrás, ainda era marcado por limitações de abastecimento.
Ao mesmo tempo, a semaglutida, princípio ativo presente em medicamentos como Ozempic e Wegovy, da Novo Nordisk, apresenta um ritmo mais fraco. As importações originadas na Dinamarca, usadas como sinal dessa molécula no mercado brasileiro, seguem em níveis menores, em linha com a desaceleração observada nas vendas desde setembro de 2025.
Esse descompasso entre tirzepatida e semaglutida ajuda a explicar uma virada de protagonismo dentro da categoria. De um lado, a tirzepatida ganha espaço com a melhora da oferta. De outro, a semaglutida entra em um novo ciclo, agora influenciado também por um fator regulatório decisivo: o vencimento da patente no Brasil.
Em 20 de março de 2026, expirou a patente da semaglutida no país, abrindo caminho para a entrada de concorrentes. Por se tratar de um medicamento biologicamente complexo, a expectativa é de avanço de biossimilares, e não de genéricos tradicionais, o que deve limitar descontos mais agressivos. Ainda assim, o mercado projeta reduções de preço na casa de 20% conforme novos players começarem a operar.
Hoje, as canetas de semaglutida giram em torno de R$ 1.000, a depender da dosagem. Sem novos concorrentes já disponíveis nas prateleiras, a dinâmica de preços ainda não mudou. Mas esse cenário deve começar a se transformar ao longo do segundo semestre. Entre os laboratórios mais adiantados nesse movimento estão EMS e Ávita Care, com expectativa de entrada entre julho e agosto de 2026, no cenário mais otimista.
O pano de fundo dessa disputa é um mercado que já ganhou relevância global. Segundo estimativas citadas no relatório, o Brasil se consolidou como um dos maiores mercados de GLP-1 no modelo de pagamento direto, com cerca de 1,15 milhão de pacientes ativos em tratamentos à base de semaglutida e tirzepatida. Ainda assim, esse número representa algo em torno de 2% da população elegível, o que mostra o tamanho do espaço para expansão.
As projeções também chamam atenção. O faturamento da categoria pode saltar de R$ 11,7 bilhões em 2025 para R$ 19,4 bilhões em 2026, com potencial para alcançar R$ 36 bilhões até 2030. Mais do que uma tendência pontual, o avanço sugere a consolidação dos GLP-1 como uma nova frente estrutural de consumo em saúde no país.
Nesse contexto, o varejo farmacêutico aparece como um dos principais canais de captura de valor. Com o aumento da concorrência entre fabricantes e a ampliação da base de pacientes, redes de farmácia tendem a se beneficiar do crescimento da categoria. A avaliação do Citi é que a Raia Drogasil está entre as companhias mais bem posicionadas para capturar esse movimento, com potencial de ter parte relevante de seu crescimento em 2026 ligada ao avanço dos GLP-1. Já a Hypera surge como um nome a acompanhar no segmento de biossimilares, especialmente após a quebra da patente da semaglutida.
Para o mercado, 2026 deve marcar um ponto de inflexão. A combinação entre maior oferta, entrada gradual de concorrentes e possibilidade de redução de preços tende a ampliar o acesso e acelerar a difusão dessas terapias no Brasil. Para indústria, varejo e investidores, o recado é claro: a categoria de GLP-1 deixa de ser apenas uma febre de consumo e passa a ocupar um espaço mais permanente na lógica de crescimento do setor de saúde.
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Conteúdo Exame adaptado para o portal Foodbiz







