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Escassez hídrica pressiona indústria por novas tecnologias de produção

A gestão da água começa a ganhar espaço como um dos principais desafios para a indústria global de alimentos. Responsável por cerca de 70% do consumo de água doce no mundo, o sistema alimentar enfrenta um cenário cada vez mais pressionado por mudanças climáticas e pelo crescimento da demanda por alimentos nas próximas décadas. De acordo com estimativas da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, a produção global de alimentos terá de crescer cerca de 50% até 2050 para atender a demanda da população mundial. Esse avanço, no entanto, ocorre em um contexto de maior escassez de recursos naturais e de pressão por modelos produtivos mais eficientes.

Grande parte da produção de alimentos, especialmente de proteínas, depende de cadeias agrícolas e pecuárias intensivas em água e expostas a variáveis difíceis de controlar, como clima, disponibilidade de terra e eventos extremos. Nesse cenário, a biotecnologia surge como alternativa para tornar a produção mais eficiente. Tecnologias de fermentação e bioprocessos permitem produzir proteínas em ambientes controlados, com maior previsibilidade de escala e menor dependência de fatores como clima, solo e disponibilidade hídrica.

Para Paulo Ibri, CEO da Typcal, primeira foodtech da América Latina a trabalhar com fermentação de micélio, essa mudança tecnológica representa uma evolução natural da indústria de alimentos diante das novas restrições de recursos. “O sistema alimentar global foi estruturado em um momento de abundância relativa de terra e água. Hoje, essa lógica começa a mudar. A biotecnologia permite produzir proteína de forma mais eficiente, com ciclos produtivos mais curtos e menor dependência de variáveis ambientais”, afirma o executivo.

Segundo ele, tecnologias de fermentação têm potencial para redefinir parte da matriz produtiva de ingredientes alimentícios ao combinar eficiência industrial com maior estabilidade de oferta. No consumo de água, os ganhos também são expressivos: a pegada hídrica do micélio, por exemplo, pode ser até 400 vezes menor que a da carne bovina, 178 vezes menor que a do frango e 30 vezes menor que a da soja, de acordo com o Relatório de Sustentabilidade da Typcal.

“Bioprocessos permitem produzir proteínas em ambientes controlados, o que traz mais previsibilidade para a cadeia e reduz a pressão sobre recursos naturais como água e terra. Em muitos casos, a pegada hídrica dessas soluções é significativamente menor do que a de cadeias tradicionais. À medida que a demanda global por proteína cresce, esse tipo de tecnologia tende a ganhar espaço como complemento importante aos modelos convencionais de produção”, explica o CEO.

Na avaliação do executivo, o avanço dessas soluções também abre espaço para que países com forte tradição agroindustrial ampliem sua atuação no desenvolvimento de novas cadeias de valor baseadas em biotecnologia.

“O Brasil já é uma potência global na produção de alimentos. A incorporação de tecnologias de fermentação e novos ingredientes pode ampliar esse protagonismo, permitindo que o país também lidere o desenvolvimento de soluções alimentares mais eficientes em recursos e preparadas para os desafios das próximas décadas”, conclui Ibri.

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