O que sobra da produção de cerveja pode virar ingrediente para alimentos do futuro. Essa é a proposta da Typcal, foodtech brasileira que transforma resíduos da indústria cervejeira em proteína por meio da fermentação de micélio — a parte vegetativa dos fungos.
Fundada em 2023, a Typcal é a primeira empresa da América Latina a desenvolver proteína de micélio com fermentação controlada em escala industrial. A tecnologia permite produzir até 7.000 vezes mais proteína por metro quadrado do que a soja, sem depender de grandes áreas de cultivo.
A novidade ganhou ainda mais força com a inauguração da primeira fábrica da empresa, em Pinhais (PR). A expectativa é produzir até cinco toneladas de micélio por mês, com foco no mercado internacional. O modelo de atuação é B2B2C, e a foodtech mantém parceria com a Ambev.
Segundo reportagem publicada no Portal Foodbiz, a inovação da Typcal chama atenção não apenas pela eficiência produtiva, mas também pelo uso inteligente de subprodutos da indústria alimentícia, como o malte residual da produção de cerveja.
O que é micélio e por que ele importa?
O micélio é formado por filamentos microscópicos chamados hifas, responsáveis pelo crescimento dos fungos. Rico em proteínas e fibras, ele tem sabor neutro e textura versátil, o que facilita sua aplicação em diferentes categorias de alimentos sem interferir no perfil sensorial.
Como funciona a tecnologia
O processo desenvolvido pela Typcal se baseia em fermentação controlada em biorreatores verticais. Em cerca de 24 horas, o micélio atinge o ponto ideal para uso alimentar.
De acordo com Eduardo Sydney, cofundador da empresa e doutor em biotecnologia, o método é até 6.000 vezes mais eficiente do que formas tradicionais de produção de proteína. Isso significa menos consumo de água, menos uso de terra e uma pegada ambiental significativamente menor.
Enquanto culturas como a soja exigem grandes extensões agrícolas e a proteína animal demanda altos volumes de recursos naturais, o micélio cresce em ambientes compactos e altamente controlados — um diferencial importante para o futuro da produção de alimentos.
Impacto ambiental e economia circular
Os números reforçam o potencial da tecnologia. Segundo a Typcal, a produção de micélio emite 98% menos CO₂ do que a carne bovina e consome 99,8% menos água.
Além disso, ao utilizar resíduos da indústria cervejeira, o processo se encaixa diretamente no conceito de economia circular, transformando o que seria descartado em um ingrediente de alto valor nutricional.
A expectativa da empresa é que, em dois a três anos, o custo da proteína de micélio se iguale ao da proteína de ervilha. Em um horizonte de até dez anos, a projeção é que fique mais barata do que a soja.
Aplicações no foodservice e na indústria
A Typcal trabalha com diferentes formatos de produto. A biomassa fresca tem aparência semelhante à carne desfiada e pode ser usada tanto em substitutos de carne quanto em ração animal.
Já a versão em pó, com shelf life de até 12 meses, amplia as possibilidades de uso em panificação, snacks e alimentos industrializados — uma solução prática para a indústria.
A empresa também investe em novas frentes, como proteína concentrada para suplementação esportiva e compostos de fibras voltados à saúde intestinal, um segmento visto como uma das próximas grandes apostas do mercado de alimentação saudável.
A proposta, segundo os fundadores, é clara: tornar os alimentos mais nutritivos e sustentáveis sem exigir mudanças radicais no comportamento do consumidor.
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Fonte: Exame







