Durante décadas, o café esteve associado no Brasil à rotina acelerada, ao estímulo rápido e ao consumo automático. Mas esse comportamento começa a mudar. Segundo reportagem publicada em O Globo, cresce no país um movimento que desafia a lógica do café como commodity e propõe uma relação mais sensorial, consciente e identitária com a bebida.
A transformação está ligada à expansão dos cafés especiais e à chamada Quarta Onda do café, que valoriza origem do grão, métodos de produção, sustentabilidade, rastreabilidade e experiência. Nesse novo cenário, o café deixa de ser apenas combustível para se tornar pausa, ritual e prazer.
Um dos exemplos citados pela reportagem é o Café di Preto, microtorrefação criada em 2020 com foco na valorização de produtores negros na cadeia do café. Seu fundador, Raphael Brandão, relata que só passou a enxergar o café como experiência cultural ao conhecer esse novo universo, até então distante do consumo cotidiano da maioria dos brasileiros.
Apesar do avanço, o Brasil ainda consome majoritariamente cafés tradicionais. Dados da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic) mostram que quase 60% do consumo nacional se concentra nas categorias Tradicional e Extraforte, com grãos de menor qualidade e torra mais intensa. Os cafés especiais representam apenas 1% do mercado interno, mesmo com o país sendo o maior exportador mundial.
Ainda assim, a mudança cultural está em curso. Para a barista e instrutora Amanda Demetrio, ouvida por O Globo, o café passa a ocupar um novo lugar no cotidiano: menos estímulo e mais pausa. Um comportamento que não se traduz, por enquanto, em volume de mercado, mas que sinaliza uma tendência clara de estilo de vida.
Esse movimento também aparece nas cafeterias que apostam em educação e acolhimento do consumidor. Na Tábikòfi, no Rio de Janeiro, a proposta é apresentar o café especial sem esnobismo, explicando perfis de torra, regiões produtoras e características sensoriais, respeitando o ritmo e as preferências de cada cliente.
A reportagem destaca ainda o café especial como símbolo de autocuidado. Para a empresária Juliana Ganan, autora do livro Por trás da sua xícara, preparar café em casa virou um ritual de atenção plena, que convida à desaceleração antes do início do dia.
Mais do que uma tendência passageira, o café especial se consolida como um reflexo de mudanças mais amplas no consumo: busca por qualidade, conexão com a origem dos alimentos e experiências que façam sentido. Um tema que dialoga diretamente com os debates sobre comportamento, foodservice e inovação acompanhados pelo IFB e pelo Portal Foodbiz.
Conteúdo originalmente publicado em O Globo, por Bolívar Torres







