O termo “caviar” pode remeter imediatamente ao luxo e à sofisticação da culinária europeia e asiática. No entanto, o Brasil também tem sua joia do mar: a bottarga de tainha, um tipo nobre de ova que vem conquistando espaço em menus requintados e nos pratos de quem valoriza o sabor autêntico com raízes locais.
Um ingrediente com história global
Historicamente, as ovas sempre fizeram parte da alimentação humana. Os persas já extraíam ovas de esturjão no Mar Cáspio, enquanto russos e povos do Cáucaso refinaram sua apreciação, transformando o caviar em símbolo de status. Já os franceses levaram essa iguaria ao auge do requinte gastronômico. Em paralelo, países como Japão, Grécia, Islândia e Coreia mantiveram viva a tradição de consumir ovas de diversas espécies de maneira cotidiana e criativa.
A versatilidade das ovas na alta gastronomia
Nos restaurantes de cozinha asiática e contemporânea, o uso de diferentes tipos de ovas proporciona textura, salinidade e um toque visual surpreendente. No Japão, a ikura (ova de salmão) e o tobiko (de peixe-voador) se destacam em sushis e bowls. Já na Coreia, o mentaiko — ova temperada de bacalhau — aparece como elemento de conforto.
No Brasil, chefs como André Mifano (Donna) e Tsuyoshi Murakami (Murakami) incorporam as ovas em preparos criativos, explorando sua diversidade sensorial. Há ovas que estouram na boca, outras que derretem ou trazem picância sutil. Segundo Mifano, “elas oferecem salinidade e maresia, transformando um prato por completo”.
A estrela nacional: bottarga de tainha
Embora o Brasil não produza caviar de esturjão, há uma iguaria nacional que merece destaque: a bottarga de tainha. Popular nas regiões costeiras de Santa Catarina, ela é conhecida como o “caviar brasileiro”. Produzida a partir das ovas inteiras da tainha, a bottarga passa por um processo artesanal de salga, prensagem e secagem lenta.
O resultado é um bloco firme, dourado, de sabor intenso e marcante — com notas que lembram frutos do mar, nozes e até queijos curados, dependendo do tempo de maturação. Ralada sobre massas, risotos ou peixes grelhados, essa iguaria adiciona complexidade e identidade aos pratos.
Muito além do esturjão
Hoje, o mercado global valoriza cada vez mais a diversidade de ovas. Veja algumas das mais utilizadas:
- Caviar (esturjão): O mais tradicional, com variedades como Beluga, Ossetra e Sevruga. Exige métodos delicados de extração e maturação, e chega a custar até 2 mil dólares o quilo.
- Ikura (salmão): Carnuda e brilhante, é presença marcante na culinária japonesa.
- Tobiko (peixe-voador): Pequenas, crocantes, com coloração vibrante.
- Bottarga (tainha ou atum): Versão do Mediterrâneo semelhante à brasileira.
- Mentaiko (bacalhau ou polaca): Fermentadas e picantes, típicas da Coreia e Japão.
- Masago (capelin): Menor e mais econômica, comum em sushis ocidentais.
- Ovas de água doce: No Brasil, as ovas de curimatã, tambaqui ou tilápia são consumidas fritas ou em moquecas, especialmente no Norte e Nordeste.
Uma tradição que se renova
Em um país de dimensões continentais e rica biodiversidade, é natural que a culinária brasileira abrace diferentes tipos de ovas em seu repertório. Seja nas farofas com dendê do Norte, nas massas refinadas do Sul ou nos restaurantes de vanguarda de São Paulo, as ovas se consolidam como um elo entre o popular e o sofisticado, entre a tradição e a inovação.
A bottarga de tainha é um símbolo disso — um produto com identidade local, produção artesanal e cada vez mais valorizado dentro e fora do país. O “caviar brasileiro” mostra que o sabor pode sim ter sotaque.
Fonte: Exame







