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A cultura da marmita: da ficção para o cotidiano brasileiro

Reprodução/TV Glob

A novela “Vale Tudo”, da TV Globo, tem lançado luz sobre um hábito cada vez mais comum nas grandes cidades: o de levar marmitas para o trabalho. Na trama, personagens da agência de publicidade Tomorrow aparecem com suas bolsas térmicas, reforçando uma tendência que já fazia parte da realidade brasileira, mas que ganhou novos contornos após a pandemia.

A adesão às marmitas reflete transformações culturais e sociais mais profundas. O gesto de levar comida de casa ao trabalho deixou de ser associado à escassez e passou a simbolizar cuidado com a saúde, consciência financeira e até preocupação ambiental.

Um hábito que se fortaleceu com a pandemia

Durante os períodos de isolamento social, o preparo de refeições em casa se tornou prática diária para muitas famílias. Com isso, consolidou-se o hábito de montar marmitas para os dias de trabalho presencial. Influenciadores digitais e profissionais da saúde também contribuíram para essa mudança de percepção, promovendo a alimentação caseira como alternativa mais saudável e equilibrada.

A nutricionista Patricia Nehme, da USP, confirma que essa prática se manteve firme mesmo após a reabertura dos restaurantes. “As pessoas perceberam que comer comida de casa pode ser mais nutritivo, seguro e adaptado às suas necessidades individuais”, afirma.

A valorização cultural da comida de casa

A novela reflete esse novo olhar. A personagem Raquel, interpretada por Taís Araújo, leva sua própria marmita para o trabalho — um hábito que a própria atriz já declarou manter na vida real. Celebridades como o jornalista Cesar Tralli também se declararam adeptos, ampliando a visibilidade positiva dessa prática.

Segundo a nutricionista Cibele Crispim, da UFU, houve uma mudança de paradigma. “Levar marmita deixou de ser visto como algo pejorativo e passou a representar autonomia alimentar e autocuidado”, explica.

Economia e praticidade no dia a dia

Com o aumento do custo dos alimentos e a defasagem dos valores do vale-refeição, o fator econômico se tornou ainda mais relevante. Para muitos brasileiros, como Pollyana dos Santos Biano, de 24 anos, a marmita é uma solução viável para manter a alimentação em dia sem comprometer o orçamento. “Se eu gasto no mercado, consigo me organizar para o mês inteiro. Em restaurante, não dá para fazer isso”, relata.

Dados da consultoria Kantar reforçam esse movimento: o custo de se alimentar fora de casa subiu 23% em 2024, com impacto ainda maior nas classes D e E, onde o aumento chegou a 30%.

Novas oportunidades para o mercado

Diante dessa realidade, o mercado se adaptou. Há uma diversidade crescente de potes térmicos e bolsas específicas para transporte de marmitas. Marcas como Pacco e Le Creuset, por exemplo, lançaram modelos que podem ultrapassar os R$ 400, sinalizando um reposicionamento da marmita como um item de desejo e estilo.

A nutricionista Patricia Nehme recomenda atenção ao equilíbrio nutricional das marmitas. O ideal, segundo ela, é seguir as diretrizes do Guia Alimentar para a População Brasileira, incluindo proteínas, carboidratos, fibras e gorduras boas, sempre com cuidados de conservação e transporte.


Fonte: Portal Tela

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